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Entenda como o supertufão pode impactar no clima no Nordeste

Você já imaginou um supertufão formado perto da Austrália causar estragos no Brasil? Parece loucura, mas não é. A natureza se conecta de formas que nem sempre enxergamos. Na última terça-feira (14), um supertufão chamado Sinlaku apareceu ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
15 de abril de 2026 - às 08:35
Atualizado 15 de abril de 2026 - às 08:35
5 min de leitura

Você já imaginou um supertufão formado perto da Austrália causar estragos no Brasil? Parece loucura, mas não é. A natureza se conecta de formas que nem sempre enxergamos.

Na última terça-feira (14), um supertufão chamado Sinlaku apareceu no Oceano Pacífico, com ventos de até 280 km/h — uma força destruidora. Ele não vem para o Brasil, mas acendeu um alerta aqui. Por quê?

Porque ele pode ser um sinal de que o El Niño está voltando. E com força.

Mas o que um supertufão tem a ver com o Brasil?

A princípio, o El Niño é um fenômeno climático que acontece quando as águas do Oceano Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o normal. Isso muda o clima no mundo inteiro.

No Sul do Brasil (especialmente no Rio Grande do Sul), o El Niño costuma trazer muita chuva. E não estamos falando de uma chuvinha leve, não. Chuvas intensas, temporais, e até enchentes, como as que aconteceram em 2023 e 2024.

O supertufão Sinlaku se formou sobre águas excepcionalmente quentes. Isso mostra que o oceano está cheio de energia. E essa água quente acumulada no Pacífico Oeste pode começar a se deslocar para o centro e leste do Pacífico. Esse movimento é o gatilho para o El Niño.

Ou seja: o tufão em si não nos afeta, mas o que ele representa, sim. Ele é como um “termômetro” de que algo maior pode estar vindo.

E o Nordeste pode ser impactado pelo fenômeno?

Agora vem a parte que mais interessa para quem mora ou ama o Nordeste. O Nordeste também sente os efeitos do El Niño — e muitas vezes de forma bem diferente do Sul.

Enquanto o Sul fica mais chuvoso, o Nordeste costuma ficar mais seco. Sim, o El Niño pode diminuir ainda mais as chuvas no semiárido nordestino, que já sofre com longas estiagens.

Isso significa:

  • Menos água nos reservatórios (açudes, barragens)
  • Dificuldades para a agricultura familiar
  • Risco de queimadas e perda de pastagens
  • Impacto na geração de energia (já que muitas usinas no Nordeste são hidrelétricas)

Por isso, entender o que acontece lá no Pacífico é importante para preparar o Nordeste com antecedência.

calor e clima seco
A percepção é de que as mudanças climáticas estão deixando o Nordeste cada vez mais quente. foto: Freepik

O que os especialistas estão dizendo?

Cientistas acompanham o Pacífico de perto. Alguns modelos indicam que podemos ter um “Super El Niño” entre o fim de 2026 e o início de 2027 — algo raro e muito forte. Seria um dos mais intensos dos últimos 140 anos.

Mas calma: ainda não é certeza. Os meteorologistas preferem falar em “tendência” ou “prognóstico”, não em previsão fechada. O que se sabe é que o oceano está mais quente que o normal, e isso precisa ser monitorado com cuidado.

Os efeitos mais fortes, se o El Niño realmente vier, devem aparecer na primavera (setembro a novembro). No Sul: chuvas intensas. No Nordeste: tempo mais seco.

Impactos do El Niño no Brasil (Sul x Nordeste)

AspectoRio Grande do Sul (Sul)Região Nordeste
ChuvasAumentam muito, com risco de enchentesDiminuem, com risco de estiagem
AgriculturaLavouras podem sofrer com excesso de águaPlantações podem sofrer com falta de chuva
Reservatórios de águaTendem a encher ou transbordarTendem a baixar, exigindo racionamento
EnergiaGeração hidrelétrica pode ser afetada por excessoGeração hidrelétrica pode cair por falta d’água
Saúde públicaAumento de doenças transmitidas por água paradaAumento de doenças respiratórias por ar seco e poeira
Preparação necessáriaReforçar diques, sistemas de alerta e drenagemPlanejar uso racional da água, investir em cisternas

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O clima está mudando

O mais importante é não entrar em pânico, mas também não ignorar os sinais. A natureza está nos mostrando que o clima está mudando. Eventos extremos — como tufões, enchentes e secas — tendem a ficar mais frequentes.

Para o Nordeste, isso significa:

  • Governos e comunidades precisam se preparar com planos de convivência com a seca
  • Investir em tecnologias de captação de água da chuva (como cisternas)
  • Fortalecer a agricultura resistente à seca
  • Manter a população informada e consciente

E para todos nós, independente da região, fica o lembrete: o clima não tem fronteiras. O que acontece no Pacífico afeta o Sul, e o Sul também nos ensina sobre os riscos. Mas o Nordeste, com sua força e criatividade, já sabe há séculos como lidar com a escassez. O segredo é se antecipar.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.