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Dez exemplos de como o Nordeste é referência em alimentação

Quando se fala em alimentação no Nordeste, a imagem que muitas vezes vem à mente é a da seca, da escassez e da dificuldade. Mas essa narrativa está incompleta — e, cada vez mais, desatualizada. ...
REDAÇÃO ELISEU, da Agência NE9
16 de outubro de 2026 - às 09:02
Atualizado 16 de outubro de 2026 - às 09:02
8 min de leitura

Quando se fala em alimentação no Nordeste, a imagem que muitas vezes vem à mente é a da seca, da escassez e da dificuldade. Mas essa narrativa está incompleta — e, cada vez mais, desatualizada.

Antes de mais nada, a região que abriga a maior parte do Semiárido brasileiro desenvolveu, ao longo de décadas, um conjunto de soluções que hoje servem de modelo para o país e para o mundo. Da agricultura familiar adaptada ao clima à gastronomia que carrega séculos de história, o Nordeste se consolidou como referência nacional em segurança alimentar e nutricional.

Neste post, listamos dez exemplos concretos que mostram por que o Nordeste é um case de sucesso quando o assunto é alimentação.

1. A maior rede de segurança alimentar do país

A princípio, o Nordeste é a região com maior adesão ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan): são 697 municípios e todos os nove estados integrados à política nacional .

Esse número não é apenas simbólico. Significa que a região construiu uma estrutura de governança federativa que articula União, estados, municípios e sociedade civil em torno de metas comuns de combate à fome e promoção da alimentação saudável. O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, chegou a classificar o Nordeste como “a região mais organizada e mais comprometida” com o Plano Brasil Sem Fome .

2. Redução acelerada da insegurança alimentar severa

Enquanto o Brasil como um todo reduziu a insegurança alimentar severa em 11,4 pontos percentuais em 2023, o Nordeste registrou uma queda de 14,8 pontos percentuais — a maior do país .

Na prática, isso significou milhões de pessoas saindo da condição de fome em um período de apenas um ano. Esse resultado foi construído por uma combinação de transferência de renda, fortalecimento da agricultura familiar e programas estaduais de combate à fome que se multiplicaram pela região.

3. O Programa de Alimentos Saudáveis (PAS Nordeste)

Instituído pelo Consórcio Nordeste, o PAS Nordeste é provavelmente a iniciativa mais ambiciosa da região no campo da alimentação saudável. O programa busca articular a produção da agricultura familiar com a demanda de compras governamentais e mercados privados, garantindo renda ao produtor e comida de qualidade na mesa da população .

O programa já mapeou 33 polos produtivos em cadeias estratégicas como avicultura caipira, cacau, cordeiro, fruticultura, leite, mandioca, mel e pescado, presentes nos nove estados . A iniciativa também levou mais de 25 cooperativas da agricultura familiar para feiras na Alemanha e em Portugal, abrindo portas para exportação .

4. Ceará Sem Fome: O programa que virou referência nacional

O programa Ceará Sem Fome foi premiado em primeiro lugar na categoria “Boas Práticas de Combate à Fome” do Prêmio Brasil Sem Fome, superando experiências de outros cinco estados e do Distrito Federal .

Ao mesmo tempo, os números impressionam: em dois anos, o Ceará saltou de 18% para 68% de domicílios em situação de segurança alimentar. Mais de 150 mil cearenses deixaram a insegurança alimentar grave apenas em 2024 . O programa conta com mais de 1.300 cozinhas ativas nos 184 municípios cearenses, que já serviram mais de 30 milhões de refeições .

Prato Cheio: O programa paraibano que alimenta e enfrenta desafios

O Prato Cheio é um projeto emergencial do Governo da Paraíba, executado pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Humano (Sedh), que tem como objetivo garantir três refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar) para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social. Assim, durante o tempo em que está ativo, a iniciativa mudou a realidade de milhares de pessoas no estado.

6. Cozinhas Comunitárias que Transformam Realidades

O programa Comida no Prato, do Governo da Bahia, é outro exemplo de escala. No primeiro edital, foram investidos R$ 48,4 milhões para a distribuição de 4,4 milhões de refeições. Dessa forma, beneficia cerca de 20 mil pessoas nos 17 municípios mais populosos do estado. O segundo edital prevê atender 30 mil pessoas em 103 municípios .

Na cidade de Amargosa, a Associação Agroecológica da Jaqueira — liderada por mulheres — produz 400 refeições diárias com alimentos da agricultura familiar agroecológica, distribuídas seis vezes por semana para pessoas em vulnerabilidade .

7. A gastronomia como Patrimônio e Identidade

Em suma, a culinária nordestina não é apenas comida: é cultura, memória e identidade. Pratos como carne de sol, queijo coalho, rubacão (ou baião de dois), cuscuz, tapioca, acarajé e moqueca carregam séculos de história e a fusão de influências indígenas, africanas e europeias .

O queijo coalho artesanal, por exemplo, é descrito como um alimento que “se estabelece nas bases da alimentação sertaneja. Desse modo, desempenha papel fundamental na vida e sobrevivência popular” . A tradição alimentar do Seridó potiguar é tão significativa que a região é conhecida como polo gastronômico, com festas como a de Sant’Anna em Caicó celebra comidas típicas como a paçoca de carne de sol, o queijo de manteiga e outras iguarias que só existem na região.

Queijo Gertrudes foto reprodução
Queijo de manteiga Gertrudes foto reprodução

8. Adaptação Climática e Convivência com o Semiárido

Em resumo, a agricultura familiar do Nordeste desenvolveu, ao longo de gerações, tecnologias sociais de convivência com o Semiárido que hoje são estudadas internacionalmente. Assim, a secretária executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), Andrea Meza, destacou na COP30 o interesse global em replicar as soluções nordestinas: “há muito conhecimento de como fazê-lo” .

O recaatingamento — recuperação de áreas degradadas da Caatinga com espécies nativas — é uma dessas inovações. O bioma, que abriga 1,3 milhão de estabelecimentos rurais familiares, carrega o que a diretora do Comida da Manhã chamou de “gene da adaptação” .

9. A Força da Agricultura Familiar

O Nordeste concentra mais da metade dos estabelecimentos rurais familiares do Brasil: são 1,8 milhão, sendo 1,3 milhão na Caatinga . Portanto, essas famílias são descritas como “a espinha dorsal da segurança alimentar no Nordeste brasileiro e um pilar fundamental na conservação ambiental e adaptação climática” .

Em suma, a agricultura familiar nordestina não produz apenas para subsistência: ela abastece feiras, mercados institucionais (como o PNAE e o PAA) e, cada vez mais, mercados internacionais. O Circuito Nordestino de Feiras da Agricultura Familiar é uma das expressões dessa força coletiva .

10. Reconhecimento Internacional

O Brasil segue fora do Mapa da Fome da ONU, e a experiência nordestina é citada como parte central desse resultado. Afinal, o relatório SOFI 2026, da FAO, destacou a abordagem brasileira como “exemplo de uma abordagem integrada, que combina políticas de proteção social, fortalecimento da agricultura familiar e ampliação do acesso a alimentos saudáveis” .

Além disso, o custo da dieta saudável no Brasil — US$ 4,89 por pessoa ao dia — está abaixo da média da América do Sul e da América Latina e Caribe . Assim, a região Nordeste, com seus programas estaduais e municipais, é parte fundamental desse desempenho.

Tabela-Resumo: Os 10 exemplos

#ExemploDestaqueNúmeros/Impacto
1Maior adesão ao SisanGovernança federativa697 municípios, 9 estados
2Redução da insegurança alimentar severaMaior queda do país-14,8 p.p. (vs. -11,4 p.p. nacional)
3PAS NordesteProdução e consumo de alimentos saudáveis33 polos produtivos; 9 estados
4Ceará Sem FomePremio Brasil Sem Fome (1º lugar)1.300+ cozinhas; 30 mi+ refeições
5CRESAN RecifePremio Brasil Sem Fome (municipal)30 mil refeições/mês; 9 mil pessoas
6Comida no Prato (BA)Cozinhas comunitárias4,4 mi refeições (1º edital)
7Gastronomia regionalPatrimônio culturalCarne de sol, queijo coalho, acarajé
8Convivência com o SemiáridoRecaatingamento e tecnologias sociais1,3 mi estabelecimentos na Caatinga
9Agricultura familiarBase da segurança alimentar1,8 mi estabelecimentos (maioria do Brasil)
10Reconhecimento internacionalFAO/ONUBrasil fora do Mapa da Fome

Nordeste se reinventa para avançar

Portanto, o Nordeste não é apenas uma região que superou a fome: é uma região que construiu conhecimento, políticas públicas e soluções que hoje servem de exemplo para o Brasil e para o mundo.

Dessa forma, da maior rede de segurança alimentar do país ao reconhecimento internacional da FAO, dos 30 milhões de refeições servidas no Ceará às cozinhas comunitárias que transformam vidas na Bahia, o que se vê é um sistema em movimento. Afinal, isso combina tradição e inovação, produção e distribuição, cultura e política pública.

A frase do secretário de Cidadania do Consórcio Nordeste, Diego Pessoa, resume bem o espírito: “Nós queremos que esse processo traga a segurança alimentar e que não gere outra distorção, que é o mundo se dividir entre aqueles que conseguem se proteger das mudanças climáticas e aqueles que não conseguem” .

Em resumo, o Nordeste escolheu o caminho da comida na mesa, com dignidade e justiça social. E está mostrando ao Brasil como se faz.