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Conheça a professora nordestina que formou a mãe e avó no EJA

Aposentadas Tereza da Silva e Rita Vieira se formaram na junto com outros 55 alunos Dentro da lógica ideal de aprendizado, é comum ver pais incentivando e acompanhando os filhos na escola. Mas, por conta ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
22 de setembro de 2026 - às 09:17
Atualizado 22 de setembro de 2026 - às 09:17
6 min de leitura

Aposentadas Tereza da Silva e Rita Vieira se formaram na junto com outros 55 alunos

Dentro da lógica ideal de aprendizado, é comum ver pais incentivando e acompanhando os filhos na escola. Mas, por conta da necessidade de trabalhar desde cedo, esses papéis podem se inverter. É o caso da professora Roberta Vieira, de 42 anos, que encorajou e deu aula para a avó e a mãe se formarem no Programa Brasil Alfabetizado (PBA), em Limoeiro, no Agreste de Pernambuco.

Na última quarta-feira (16), 55 alunos da rede municipal de Limoeiro receberam o certificado de conclusão do programa. Ao mesmo tempo, entre eles estavam as aposentadas Tereza da Silva e Rita Vieira, respectivamente avó e mãe da professora Roberta Vieira, que leciona há cerca de 13 anos no município. Em entrevista ao Diário de Pernambuco, ela fala sobre o desafio e emoção.

“Na hora em que entreguei o certificado a elas, eu me emocionei muito e agradeci a Deus por ele ter me dado a oportunidade de retribuir tudo o que elas fizeram por mim quando criança. Foi muito gratificante vê-las superando as barreiras e as limitações para conseguirem se formar”, destacou a professora.

Uma história de superação e incentivo mútuo

De acordo com Roberta Vieira, a necessidade de trabalhar na agricultura desde cedo fez com que a mãe e a avó não se formassem no tempo ideal. Apesar disso, elas nunca deixaram de incentivar Roberta a seguir o caminho dos estudos.

“Quando minha mãe veio aprender a juntar as sílabas, ela já tinha 22 anos. Nessa época, ela aprendeu a escrever e ler, mas com muita dificuldade, tanto que precisou desse programa novamente. E minha avó trabalhou na agricultura, junto com minha mãe, e também era costureira. Apesar disso, elas educaram e incentivaram os filhos a estudar, mesmo com a falta de oportunidades que elas tiveram quando menores”, explicou.

Em suma, o retorno para o processo de alfabetização partiu da avó, Tereza, de 79 anos, que incentivou a filha adotiva, Rita, de 72 anos, a voltar em um momento de luto da família.

“Minha avó se inscreveu primeiro e foi ela que puxou a minha mãe, que é filha adotiva dela. Minha avó sentiu vontade de retornar aos estudos após a perda de duas filhas e por conta da necessidade de ligar para os netos e filhas sem precisar da ajuda dos vizinhos. Dentro de uma semana, minha mãe também decidiu ir para as aulas. Isso foi muito gratificante para mim, pois as duas se incentivavam”, relembrou Roberta Vieira.

O EJA alfabetiza jovens e adultos em todo o Brasil.

“Eu tinha aquela sede de estudar”

Tereza sempre quis estudar, mas não teve oportunidade de frequentar a escola no tempo regular devido ao pensamento do pai, que enxergava os estudos como algo inadequado para mulheres.

“Eu tinha aquela sede de estudar, só que meu pai não deixava porque falava que mulher não precisava aprender a ler, naquele tempo era uma ignorância. Ele falava assim: ‘Para que mulher estudar? Para mandar carta para namorado?’ Isso me deixava triste, mas naquele tempo as pessoas tinham a mente mais fechada”, relata.

O período de 1 ano e dois meses do programa de alfabetização foi essencial para a avó de Roberta aprender a lidar com o luto.

“Eu perdi duas filhas e a minha situação não estava bem, eu estava muito deprimida, ficava muito em casa. Roberta teve essa iniciativa e eu disse: ‘Tá certo, eu vou’. Nossa turma era bem legal, além dos estudos, a gente se encontrava, comemorava aniversários, confraternizava”, lembra Tereza.

A princípio, o projeto também possibilitou que Tereza tivesse mais autonomia em realizar atividades do dia a dia, como se comunicar através do celular.

“Eu não sabia ligar, eu tinha o celular, mas era daqueles pequenininhos. Depois ganhei um com WhatsApp, mas sabia fazer ligações, eu só atendia, porque para ligar precisava saber ler para procurar o nome e isso era complicado para mim”, explica.

“Para mim é um orgulho aprender a ler através da minha filha”

Rita, mãe de Roberta, conta que perdeu a mãe biológica aos 9 anos, e isso fez com que ela não tivesse acesso aos estudos.

“Eu conhecia as letras, mas não sabia juntar. Me criei sem minha mãe e não pude ir à escola”, relembra.

O processo de alfabetização fez com que Rita “fizesse as pazes” com o seu passado.

“Para mim é um orgulho aprender a ler através da minha filha. Quando ela era criança eu não dizia que não sabia ler. Quando ela chegava da escola eu pedia para ela dizer o que aprendeu, e assim era a nossa rotina”, conta.

Esse incentivo e ajuda mútua também foram observados por Roberta durante as aulas, que foram iniciadas em julho do ano passado e desenvolvidas no Centro Catequético da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, que teve o espaço cedido para o programa.

“Era muito bonito ver a preocupação dos alunos quando algum deles faltava. Então, além da própria experiência deles de aprender a ler e de juntar as palavrinhas, eles compartilhavam as experiências de vida vividas por eles.”

O olhar de quem registrou o momento

As fotos de Tereza e Rita foram produzidas pela fotógrafa Juliana Mendes, que relatou a experiência:

“Eu sentia que tinha que fazer algo que marcasse. No dia da formatura eu aluguei seis becas e dois capelos. Montamos as ringlights numa sala de aula e começamos o trabalho. Valeu a pena cada alfinetada que levei nos dedos colocando as faixas. Ver como os olhos daquelas pessoas brilhavam por estarem alfabetizadas era o que me impulsionava. Foi mágico e emocionante.”

O que essa história representa

  1. Educação como direito de todos — independentemente da idade ou do histórico de vida
  2. Incentivo familiar — avó e mãe se apoiaram mutuamente para voltar a estudar
  3. Autonomia — aprender a ler e escrever transformou a relação de Tereza com o celular e as redes sociais
  4. Luto e recomeço — o programa ajudou Tereza a superar a perda de duas filhas
  5. Retribuição — Roberta pôde ensinar quem sempre a incentivou a estudar
  6. Comunidade — os alunos criaram laços que ultrapassaram a sala de aula

A formatura de Tereza e Rita é mais do que um marco pessoal: é a prova de que nunca é tarde para aprender — e de que o incentivo dentro de casa pode transformar gerações.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.