Quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, na última quinta-feira (10), a princípio o foco inicial recaiu sobre São Paulo e Brasília. Contudo, um detalhe do relatório da PF e da Controladoria-Geral da União (CGU) chamou a atenção: o Ceará não era apenas um ponto periférico da investigação. Empresas sediadas em Fortaleza, faziam saques fracionados em dinheiro vivo. Além disso repasses oriundos do Fundeb também colocaram o estado no coração do esquema que tem investigação por desvio de recursos de emendas parlamentares para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro .
Antes de mais nada, a operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF) cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal . Ao mesmo tempo, entre os alvos estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e a produtora Karina Gama, responsável pela Go Up Entertainment, empresa que executou o filme .
A conexão de Fortaleza
O primeiro elo entre o Ceará e a investigação aparece na análise da CGU sobre a solicitação de orçamentos feita pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), sediado em São Paulo, à Cometa Livraria, empresa de Fortaleza. O órgão classificou a prática como “atípica”, já que o estado de São Paulo concentra ampla oferta de editoras e fornecedores do setor editorial .
De acordo com o relatório, há indícios de que a Cometa Livraria, junto com outras duas empresas, foi acionada apenas para cumprir a exigência de três orçamentos distintos no âmbito do Termo de Fomento — uma simulação para dar aparência de legalidade à contratação .
A investigação aponta que Dayvid Moreira Medeiros como peça-chave do grupo editorial investigado, já foi proprietário de empresas editoras em Fortaleza, incluindo a Gráfica e Editora Dinâmica Ltda. Para os investigadores, a coincidência de sede entre a Cometa Livraria e a antiga empresa do sócio “clarifica as razões de tal atipicidade e dá ainda maiores contornos de simulação às pesquisas de preços realizadas” .
O caminho do dinheiro: de São Paulo ao Ceará
A Polícia Federal identificou que empresas pertencentes ao grupo de Dayvid Medeiros repassaram cerca de R$ 750 mil para a Go Up Entertainment, produtora de Karina Gama responsável pelo filme de Bolsonaro .
Antes disso, o dinheiro havia saído de São Paulo. O deputado Mário Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, que tem à frente Karina Gama. Parte desses recursos, cerca de R$ 700 mil, foi subcontratada para a Dinâmica Editora e Distribuidora de Livros, de Dayvid Medeiros, e para o Instituto Super Poder Educacional, administrado por Pamella Cristiane Dias, que atua como coordenadora editorial na HD Cultural, outra empresa de Medeiros .
A suspeita é que os serviços que tiveram contratação — kits de material físico e pedagógico digital — nunca foram efetivamente entregues. Segundo reportagem do Estadão citada pelo Intercept, os livros didáticos adquiridos da editora de Medeiros para um projeto em Pirassununga (SP) nunca chegaram ao destino. Dessa forma, configura a compra de “livros fantasmas” .
Saques em fração e repasses do Fundeb
Assim, o inquérito também revela que a circulação de verbas no Ceará não se limitou a transações empresariais. O relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou 14 saques de R$ 49.999,99 que ocorreram em Fortaleza entre os dias 4 e 31 de março de 2026 .
O valor não é aleatório. Transações em espécie iguais ou superiores a R$ 50 mil devem ser obrigatoriamente comunicada à Coaf. Em resumo, este um centavo abaixo do limite revela que os envolvidos tentavam evitar a comunicação automática ao órgão de controle .
Os saques ocorreram através do sócio Daywson Medeiros, irmão de Dayvid. No mesmo período, a Cometa Livraria também registrou saques similares, segundo o relatório .
A investigação aponta ainda que, em dezembro de 2025, a Editora HD Cultural — outra empresa ligada ao grupo de Dayvid Medeiros — recebeu R$ 1,29 milhão oriundos do Fundeb do município de Icó, no interior do Ceará .
O repasse de R$ 250 mil e a servidora da Alece
Um dos pontos mais delicados do relatório envolve um repasse de R$ 250 mil realizado pela Mecla Editorial, de propriedade de Daywson Medeiros, para a conta da servidora pública Jacqueline Coelho Rocha Silva, que atua na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) desde 1985 .
Procurada pelo O POVO, Jacqueline negou qualquer irregularidade. Segundo ela, o valor corresponde à venda de um imóvel que pertencia à sua família, localizado no bairro Benfica, em Fortaleza. A servidora afirmou que um corretor intermediou a negociação com a Mecla Editorial, Além disso, ela alega que possui escritura, contrato de compra e venda e outros documentos que comprovam a transação .
A Alece, em nota, informou que “eventuais movimentações financeiras de natureza pessoal de servidores são de exclusiva responsabilidade dos mesmos” .
O que diz Flávio Dino
Na decisão que autorizou a operação, o ministro Flávio Dino destacou que “as distâncias geográficas e as presumíveis dificuldades logísticas não impediram que pessoas jurídicas localizadas no Estado do Ceará recebessem valores de entidades situadas no Estado de São Paulo” .
Dino impôs medidas cautelares a todas as empresas envolvidas, proibindo novos contratos ou parcerias que envolvam dinheiro público com as sociedades empresárias investigadas .

Resumo das conexões do Ceará na investigação
| Elemento | Detalhes |
|---|---|
| Empresa em Fortaleza | Cometa Livraria (sede usada para simular orçamentos) |
| Empresário citado | Dayvid Moreira Medeiros (dono da Editora Dinâmica) |
| Repasses para o filme | R$ 750 mil do grupo de Medeiros para a Go Up Entertainment |
| Saques fracionados | 14 saques de R$ 49.999,99 em Fortaleza (mar/2026) |
| Fundeb | R$ 1,29 milhão para a Editora HD Cultural, de Icó (dez/2025) |
| Repasse a servidora | R$ 250 mil da Mecla Editorial para Jacqueline Coelho Rocha Silva (Alece) |
| Defesa da servidora | Alega venda de imóvel no Benfica; possui escritura e contrato |
A inclusão do Ceará na Operação Make Up revela que o esquema não era restrito a um único estado. Empresas cearenses seriam peça-chave para dar aparência de legalidade a contratos e para movimentar recursos de origem pública. E isto inclui de emendas parlamentares federais a verbas do Fundeb municipal. Em resumo, a investigação segue sob sigilo. Contudo, os documentos já apontam que o caminho do dinheiro atravessou divisas estaduais com uma desenvoltura que chamou a atenção dos investigadores.

