Quase metade das crianças e adolescentes do mundo – 1,1 bilhão – está exposta a pelo menos três riscos climáticos. No Brasil, esse retrato é igualmente preocupante: 16 milhões de meninos e meninas (3 a cada 10) convivem com três ou mais ameaças. A princípio, formadas por ondas de calor e secas prolongadas. E, como não poderia deixar de ser, a região Nordeste é uma das mais afetadas.
Esses são os dados do Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, lançado na última segunda-feira (15) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O estudo, inédito ao mapear com precisão onde e com que intensidade múltiplas ameaças climáticas se sobrepõem, acende um alerta vermelho: a infância brasileira está vivendo uma emergência silenciosa. E, para muitas famílias, o futuro já chegou na forma de calor escaldante e falta d’água.
A Combinação perfeita de riscos
No Nordeste brasileiro, a vida das crianças é marcada por uma rotina de desafios climáticos que vão muito além do “calor típico da região”. O relatório aponta que a combinação mais comum de riscos climáticos em todo o planeta é a tríade seca, calor extremo e ondas de calor. Antes de mais nada, essa é uma realidade que já faz parte do cotidiano de mais de 296 milhões de crianças globalmente.
Aqui no Brasil, os efeitos são sentidos de forma aguda: enquanto quase todas as crianças do país (47 milhões, ou 95%) respiram ar poluído, o Nordeste concentra os maiores índices de exposição à seca e à escassez hídrica. Crianças que deveriam estar brincando, aprendendo e se desenvolvendo plenamente estão, na verdade, lutando diariamente contra a desidratação, a fome causada pela perda de safras e a falta de acesso à água potável nas escolas.
“A vida das crianças segue sendo profundamente abalada por ondas de calor, incêndios florestais, secas e enchentes”, alerta Catherine Russell, diretora executiva do Unicef. E essa realidade não é distante: em estados como Pernambuco, Bahia e Ceará, as altas temperaturas já interferem no rendimento escolar, na saúde respiratória e até na segurança alimentar das famílias mais vulneráveis.
O Nordeste no Mapa Global da Crise
Embora países da Ásia, como Bangladesh e Paquistão, concentrem as maiores intensidades de ameaças climáticas, o Nordeste brasileiro ocupa um lugar de destaque no cenário de risco. A região é uma das poucas no mundo onde secas severas e ondas de calor se repetem com frequência crescente. Dessa forma, coloca em xeque a infraestrutura de serviços públicos essenciais – como unidades de saúde, escolas e sistemas de abastecimento de água.
O relatório também revela que, além dos riscos climáticos diretos, mais de 5,6 milhões de crianças brasileiras (11% da população infantil) estão expostas à malária. A doença é sensível às mudanças climáticas. Isso significa que, em muitas comunidades nordestinas, a ameaça do calor extremo vem acompanhada de riscos adicionais à saúde, sobrecarregando ainda mais as famílias e o sistema público.
O que se pode fazer?
O Unicef não se limita a descrever o problema; o órgão traçou um caminho de ação para governos e tomadores de decisão. As recomendações incluem:
- Redução urgente das emissões de gases de efeito estufa e transição justa para energias renováveis, cumprindo os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.
- Adaptação climática inclusiva, com foco em proteger crianças e adolescentes, garantindo que escolas e unidades de saúde sejam resilientes ao clima.
- Sistemas de alerta precoce eficazes e acessíveis, que avisem as comunidades sobre ondas de calor e secas iminentes.
- Empoderamento infantil e juvenil, investindo em educação climática para que as próprias crianças participem das decisões que afetam suas vidas.
- Fortalecimento da segurança alimentar e dos sistemas de água e saneamento, especialmente nas áreas mais áridas do Nordeste.
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Um Futuro que já chegou
A mensagem do relatório é clara: a crise climática não é um problema do amanhã – ela já está moldando a infância de milhões de brasileiros. No Nordeste, onde o sol castiga e a terra racha, cada dia é uma batalha pela sobrevivência e pelo direito básico de crescer com dignidade.
“Esse estudo pode ajudar governos a planejar melhor e investir de forma mais eficaz em serviços resilientes”, conclui Catherine Russell. Mas enquanto as promessas não se transformam em ações concretas, as crianças nordestinas seguem enfrentando, sol a sol, um futuro que não escolheram, mas que já são forçadas a viver.
E você, o que pode fazer hoje para ajudar a mudar essa história? Comece por se informar, cobrar políticas públicas e, principalmente, ouvir o que essas crianças têm a dizer – porque, no fim das contas, o clima do amanhã será herança delas. E elas merecem um planeta mais fresco, mais justo e mais vivo.



