Muito antes de Lampião se transformar no maior símbolo do cangaço nordestino, um potiguar já havia criado a base do movimento que marcaria a história do sertão brasileiro. Nascido em Patu, em 1844, Jesuíno Alves de Melo Calado entrou para a história como Jesuíno Brilhante — personagem considerado por muitos historiadores como o primeiro cangaceiro do Nordeste.
A princípio, a história de Jesuíno mistura violência, justiça popular, disputas familiares, seca, coronelismo e uma relação quase lendária com os sertanejos pobres do interior nordestino.
Em pleno século XIX, quando a presença do Estado praticamente não existia no sertão, coronéis dominavam cidades, controlavam policiais locais e resolviam conflitos na base do rifle e do punhal. Assim, foi nesse ambiente brutal que surgiu a figura de Jesuíno Brilhante.
Do sertão potiguar ao nascimento do cangaço

Antes da fama, Jesuíno levava uma vida considerada tranquila. Era agricultor, criador de animais e um respeitado vaqueiro do sertão potiguar. Entretanto, tudo mudou após uma disputa envolvendo a poderosa família Limão.
Segundo relatos históricos, um fazendeiro ligado à família roubou uma de suas cabras e, durante a confusão, agrediu violentamente um de seus irmãos. Assim, revoltado, Jesuíno matou o agressor a golpes de faca e passou a ser perseguido pelas autoridades. Foi o início de sua entrada definitiva na clandestinidade e no cangaço.
A partir dali, o sertanejo de baixa estatura, mas extremamente forte e habilidoso com armas, passou a formar seu próprio bando e criar aquilo que depois seria conhecido em todo o Nordeste como cangaço.
O “Robin Hood do sertão”
Diferente da imagem extremamente sanguinária associada a muitos cangaceiros do século XX, Jesuíno Brilhante ficou conhecido por um comportamento considerado incomum para a época.
Os relatos populares dizem que ele:
- evitava matar inocentes;
- perseguia coronéis abusivos;
- protegia mulheres pobres;
- e distribuía parte dos roubos aos sertanejos necessitados.
Essa postura fez com que muitos passassem a chamá-lo de “Robin Hood do sertão”.
Durante a grande seca de 1877, por exemplo, Jesuíno teria interceptado carregamentos de alimentos desviados por chefes políticos locais e distribuído os mantimentos para famílias famintas do interior nordestino.
O próprio folclorista Luís da Câmara Cascudo registrou episódios em que Jesuíno atuava para proteger mulheres humildes vítimas de abusos cometidos por homens poderosos do sertão.
Um “Estado paralelo” no sertão
Entre 1871 e 1879, Jesuíno Brilhante praticamente criou uma autoridade paralela em partes do sertão entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba.
Sem presença efetiva do governo, ele impunha suas próprias regras, resolvia disputas e enfrentava forças policiais enviadas pelos coronéis da região. Dessa maneira, alguns pesquisadores chegam a definir sua atuação como a criação de um “Estado paralelo” no interior nordestino.
Foi justamente essa estrutura criada por Jesuíno que ajudou a inspirar futuras gerações de cangaceiros, incluindo nomes históricos como Antônio Silvino, Sinhô Pereira e o próprio Lampião.
Morte digna de cinema
A trajetória de Jesuíno Brilhante terminou em 1879, em Belém do Brejo do Cruz. Perseguido por tropas policiais ligadas a inimigos antigos da família Limão, caiu em uma emboscada. Mesmo cercado, ainda tentou escapar montado a cavalo, atirando contra os perseguidores, mas acabou atingido por dois tiros fatais no peito.
Seu corpo chegou a ser levado para estudos e exposições, desaparecendo posteriormente em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas.
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Jesuíno virou símbolo da cultura nordestina
Mais de um século depois, Jesuíno Brilhante continua vivo no imaginário popular nordestino. Afinal, sua história atravessa cordéis, livros, filmes, pesquisas históricas e narrativas orais do sertão.
Portanto, em cidades do interior potiguar, principalmente em Patu, o personagem ainda é tratado quase como uma figura mítica da cultura regional.
E mesmo envolto em violência e contradições, Jesuíno acabou se transformando em um dos personagens mais fascinantes da história social do Nordeste brasileiro — um homem que nasceu no sertão profundo e acabou dando origem ao movimento mais famoso da região: o cangaço.




