Início » Política » Comissão de Turismo discute ações para estimular mais cruzeiros no Nordeste

Política

Comissão de Turismo discute ações para estimular mais cruzeiros no Nordeste

O turismo de cruzeiros no Brasil tem um potencial imenso, mas esbarra em burocracia, legislação trabalhista rígida e infraestrutura insuficiente. Para debater esses gargalos e, principalmente, estimular a vinda de mais navios para o Nordeste, ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
9 de julho de 2026 - às 08:30
Atualizado 9 de julho de 2026 - às 08:30
6 min de leitura

O turismo de cruzeiros no Brasil tem um potencial imenso, mas esbarra em burocracia, legislação trabalhista rígida e infraestrutura insuficiente. Para debater esses gargalos e, principalmente, estimular a vinda de mais navios para o Nordeste, a Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública nesta quarta-feira (8).

O deputado Eduardo Bismarck (PV-CE), que conduziu os trabalhos, apontou dois focos principais para o encontro: destravar a burocracia que emperra o setor e criar estímulos fiscais e promocionais para atrair mais cruzeiros à região Nordeste. A ideia é transformar a costa nordestina num destino permanente para os navios, gerando emprego, renda e desenvolvimento para os estados da região.

Os gargalos do setor de cruzeiros no Brasil

O setor de cruzeiros no Brasil enfrenta uma série de entraves que afastam as grandes companhias internacionais. Entre os principais problemas apontados por Bismarck estão:

1. Vistos para passageiros e tripulantes — A burocracia na emissão de vistos é um dos maiores obstáculos. Segundo o deputado, o processo é lento e desestimula as companhias a incluírem portos brasileiros em suas rotas.

2. Legislação trabalhista rígida — A lei exige que 30% da tripulação seja composta por trabalhadores brasileiros. Embora louvável, a medida obriga a troca constante de profissionais altamente especializados, que muitas vezes não estão disponíveis no país. Bismarck defende flexibilização:

“Devemos sim ter brasileiros, incentivar que tenham escolas aqui, que preparem essas pessoas para cruzeiros. Mas a gente precisa ter também uma percepção de que, para atrair mais navios para a nossa costa, a gente precisa ter uma flexibilidade sobre esse assunto.”

3. Tributação elevada — A Receita Federal taxa tanto o patrimônio dos navios quanto os ganhos a bordo, como lucros de lojas e restaurantes, o que encarece a operação no Brasil.

4. Concentração de rotas no Sul e Sudeste — Os principais portos de embarque e escala são Santos (SP) e Rio de Janeiro (RJ). O Nordeste, apesar de ter potencial, ainda é pouco explorado.

Nordeste como destino estratégico

O deputado Bismarck, que também é ex-secretário de Turismo do Ceará, defende que o Consórcio do Nordeste atue ativamente para atrair mais navios. Ele destaca que Salvador e Maceió já são portos importantes, mas a ideia é ir além:

“O que nós desejamos é manter uma rota permanente no Nordeste, que saia, por exemplo, de Salvador, de Fortaleza, e fique fazendo os outros portos, as outras capitais do Nordeste.”

De acordo com ele, os estímulos incluiriam:

  • Promoção turística da região como destino de cruzeiros
  • Isenções fiscais para atrair as companhias
  • Melhoria da infraestrutura portuária para receber navios de grande porte

Ao mesmo tempo, Bismarck ressalta que o Brasil tem uma vantagem competitiva: o fim da sazonalidade. Enquanto outros países limitam os cruzeiros ao verão, o Brasil pode receber navios o ano inteiro.

O tamanho do mercado

Antes de mais nada, os números mostram o potencial do setor:

  • Última temporada (2024-2025): movimentou cerca de R$ 5,5 bilhões e recebeu 800 mil cruzeiristas.
  • Brasil ocupa a 10ª posição no ranking mundial de emissores de passageiros em cruzeiros.
  • Próxima temporada: o setor terá uma redução de 25% , o que acendeu o alerta entre os parlamentares.

“O primeiro dever de casa é reverter essa perda de 25% na próxima temporada”, afirmou Bismarck, lembrando que a reversão dependerá de mudanças que começariam a valer a partir de dezembro de 2027.

Em suma, o deputado também destacou o impacto econômico de cada navio:

“Um navio desembarca mais de 3 mil passageiros que ficam na cidade consumindo. Em aviões, seria equivalente a 15 ou 20 voos lotados de turistas num único dia.”

O cliente principal: o brasileiro

Portanto, Bismarck enfatizou que o foco não é apenas o turista estrangeiro. Segundo ele, o principal cliente da rota nordestina seria o próprio brasileiro:

“A gente pode ter uma grande atração de cruzeiros aqui por um período muito maior do que o que a gente recebe. Isso geraria mais divisas e mais oportunidades de negócio. E o principal cliente ia ser o brasileiro.”

O deputado lembrou ainda que os cruzeiros não são exclusivos para turistas de alta renda:

“Você tem categorias que vendem aquela viagem em 12 parcelas e chega lá com praticamente tudo incluso — comida, bebida não alcoólica. Ele já vai para viagem com a viagem praticamente paga.”

Participantes da audiência

A princípio, o debate contou com a presença de representantes do Itamaraty e do Ministério do Trabalho, além de especialistas do setor. O objetivo é construir um diagnóstico conjunto e propor soluções legislativas e administrativas para tornar o Brasil, especialmente o Nordeste, um destino ainda mais atraente para os cruzeiros internacionais.

temporada de Cruzeiros em Alagoas foto Lucas Menezes
Cruzeiro em Alagoas foto Lucas Menezes

LEIA TAMBÉM:

Panorama do setor de cruzeiros no Brasil

IndicadorDados
Posição do Brasil no mundo10º maior emissor de passageiros
Movimentação (temporada 2024/2025)R$ 5,5 bilhões
Cruzeiristas (última temporada)800 mil
Redução prevista (próxima temporada)25%
Portos principais (embarque/escala)Santos (SP) e Rio de Janeiro (RJ)
Portos importantes no NordesteSalvador (BA) e Maceió (AL)
Proposta para o NERotas permanentes partindo de Salvador e Fortaleza
Entraves burocráticosVistos, legislação trabalhista (30% de brasileiros), tributação
Foco da audiência públicaDestravar burocracia + estimular cruzeiros no Nordeste
Benefícios propostosIsenções fiscais e promoção turística
Vantagem competitivaPossibilidade de cruzeiros o ano inteiro
Data da audiência8 de julho de 2026
ParticipantesComissão de Turismo, Itamaraty, Ministério do Trabalho

Fonte: Câmara dos Deputados / Comissão de Turismo

O turismo de cruzeiros no Brasil tem tudo para decolar. Dessa forma, basta que a burocracia seja desatada e que o Nordeste receba os incentivos merecidos. Com praias paradisíacas, cultura vibrante e uma costa extensa, a região tem potencial para se tornar um dos maiores destinos de cruzeiros das Américas.

Agora, é esperar que as propostas saiam do papel e que, em breve, mais navios surquem o litoral nordestino. Desse modo, levando turistas brasileiros e estrangeiros a descobrir o que o Nordeste tem de melhor. 

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.