Inteligência artificial, automação, novas competências, trabalho híbrido e saúde mental estão mudando a forma como profissionais constroem suas carreiras
O mercado de trabalho está passando por uma transformação que vai muito além da chegada da inteligência artificial. A velocidade das mudanças tecnológicas, a revisão dos modelos de trabalho e a necessidade de atualização constante estão alterando profissões, empresas e até a maneira como os profissionais pensam suas carreiras.
Para Márcio Monson, CEO da Selecty, especializada em tecnologia para recrutamento e seleção, a principal característica desse novo cenário é justamente a velocidade.
“Há alguns anos era possível prever com relativa segurança quais profissões estariam em alta nos próximos dez anos. Hoje isso ficou muito mais difícil. O mercado está se transformando em uma velocidade que não víamos antes.”

Segundo o executivo, pelo menos cinco movimentos ajudam a entender essa transformação
1. A inteligência artificial saiu do laboratório e chegou ao trabalho
A inteligência artificial deixou de ser uma tecnologia restrita às grandes empresas de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de diferentes profissionais.
Ferramentas de IA já são utilizadas para produzir textos, resumir reuniões, criar códigos, analisar dados, organizar informações e auxiliar processos de decisão.
Para Monson, o impacto não deve ser analisado apenas pela possibilidade de substituição de trabalhadores.
“O impacto da IA não está apenas em substituir tarefas. Ela amplia a capacidade produtiva das pessoas.”
Nesse cenário, profissionais que aprendem a utilizar essas ferramentas podem realizar determinadas atividades em menos tempo e concentrar seus esforços em tarefas que exigem análise, criatividade e tomada de decisão.
A tendência, segundo o especialista, é que a IA se torne cada vez mais integrada ao cotidiano profissional, assim como aconteceu com a internet.
2. A automação chegou também ao trabalho intelectual
A automação durante muito tempo esteve associada principalmente às fábricas e às atividades operacionais. Agora, sistemas digitais e inteligência artificial também executam parte das tarefas realizadas dentro dos escritórios.
Profissionais de marketing, direito, tecnologia, recrutamento, vendas e análise de dados, entre outras áreas, já convivem com ferramentas capazes de automatizar etapas de suas atividades.
Isso não significa necessariamente o desaparecimento dessas profissões. O que muda é o tipo de valor esperado do profissional.
“Estamos entrando em uma fase em que conhecimento técnico sozinho já não basta. O diferencial passa a ser interpretação, criatividade, capacidade de relacionamento e visão estratégica”, afirma Monson.
O próprio setor de tecnologia é citado como exemplo. Mesmo áreas que apresentavam forte demanda por profissionais passaram a passar por reorganizações e mudanças nos perfis procurados pelas empresas.
3. Aprender rapidamente virou uma competência profissional
Durante muito tempo, a especialização era vista como uma das principais formas de construir estabilidade profissional. O trabalhador aprendia uma profissão, acumulava experiência e avançava dentro daquela área.
Esse modelo continua existindo, mas a velocidade das transformações tornou a capacidade de aprender e se adaptar cada vez mais importante.
“O profissional mais seguro não é necessariamente o que sabe mais. Muitas vezes é aquele que aprende mais rápido”, explica o CEO da Selecty.
É nesse contexto que conceitos como reskilling, atualização profissional e aprendizado contínuo ganharam espaço.
Na prática, o trabalhador pode precisar aprender novas ferramentas, assumir funções diferentes ou até mudar de área ao longo da carreira.
Esse movimento também favorece o crescimento de trabalho por projetos, prestação de serviços especializados e empreendedorismo profissional.
4. A disputa entre presencial e remoto ainda não terminou
Cinco anos depois da pandemia, empresas continuam procurando o modelo de trabalho que melhor combina produtividade, colaboração e qualidade de vida.
O trabalho remoto mostrou vantagens para determinadas atividades, enquanto algumas empresas identificaram dificuldades relacionadas à cultura organizacional, integração das equipes e desenvolvimento profissional.
Do lado dos trabalhadores, a flexibilidade também ganhou valor.
Para Monson, depois de experimentar a possibilidade de economizar tempo com deslocamentos, muitos profissionais passaram a considerar esse benefício importante na escolha de um emprego.
A tendência apontada pelo especialista é de maior consolidação dos modelos híbridos, em vez de uma volta generalizada ao presencial ou de uma adoção completa do trabalho remoto.
5. Saúde mental entrou definitivamente na discussão profissional
A velocidade das transformações também aumenta a pressão sobre trabalhadores e empresas.
A necessidade de aprender continuamente, a preocupação com o futuro profissional, a cobrança por produtividade e as mudanças provocadas pela tecnologia fazem com que a saúde mental tenha ganhado espaço nas discussões sobre trabalho.
“Quando conversamos sobre inteligência artificial, normalmente pensamos em tecnologia. Mas existe uma dimensão humana muito importante nessa discussão.”
Nesse contexto, ambientes de trabalho mais saudáveis, lideranças preparadas e culturas organizacionais equilibradas passaram a ser considerados elementos importantes para atração e retenção de profissionais.
Dessa maneira, a discussão deixa de ser apenas uma questão do departamento de recursos humanos e passa a fazer parte da estratégia das organizações.

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O profissional do futuro já está trabalhando hoje
As cinco mudanças apontam para uma transformação que não depende apenas de novas profissões.
Portanto, o mercado está mudando também dentro das profissões que já existem. Um profissional que desempenhava determinada função há alguns anos pode continuar no mesmo cargo, mas utilizando ferramentas diferentes, desenvolvendo novas competências e assumindo responsabilidades que antes não faziam parte de sua rotina.
Por isso, a principal característica valorizada nesse novo cenário pode não ser simplesmente dominar uma tecnologia específica, mas ter capacidade de adaptação diante de tecnologias e modelos que ainda nem existem.
Afinal, como resume Márcio Monson, o desafio para trabalhadores e empresas é acompanhar a velocidade dessa transformação sem perder de vista o elemento central de qualquer mercado de trabalho: as pessoas.


