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Bets e futebol: quanto os clubes do Nordeste podem perder se publicidade for restringida?

As casas de apostas se tornaram uma presença constante no futebol brasileiro. Elas aparecem nas camisas, placas dos estádios, transmissões, redes sociais, ações com torcedores e até nos nomes de arenas. No Nordeste, esse movimento ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
18 de setembro de 2026 - às 10:39
Atualizado 18 de setembro de 2026 - às 10:39
11 min de leitura

As casas de apostas se tornaram uma presença constante no futebol brasileiro. Elas aparecem nas camisas, placas dos estádios, transmissões, redes sociais, ações com torcedores e até nos nomes de arenas. No Nordeste, esse movimento também ganhou força e passou a representar uma fonte importante de receita para alguns dos principais clubes da região.

Agora, porém, esse modelo entrou em uma nova fase de discussão.

Além dos problemas relacionados ao endividamento e ao comportamento compulsivo, o país debate novas restrições para a publicidade, o patrocínio e a operação das bets. No Congresso Nacional, existem projetos que propõem desde limitar a publicidade em espaços públicos até proibir publicidade e patrocínio de empresas de apostas no esporte.

Ao mesmo tempo, o Governo Federal avalia mudanças no mercado regulado. As informações mais recentes indicam que uma eventual medida provisória em preparação pode atingir principalmente os jogos de cassino on-line, enquanto as apostas esportivas ficariam fora da proibição em discussão.

A princípio, para o futebol nordestino, a questão é especialmente relevante porque alguns clubes possuem contratos milionários com empresas do setor.

Quais clubes do Nordeste têm bets entre os principais patrocinadores?

A situação mudou ao longo de 2026. Alguns contratos terminaram, outros foram renovados e alguns clubes passaram a trabalhar com ações pontuais.

Entre os casos que foi possível confirmar estão:

ClubeEstadoEmpresaSituação em 2026
SportPEBetnacionalPatrocinadora máster
NáuticoPEEsportes da SortePatrocinadora máster e naming rights dos Aflitos
CearáCEEsportes da SorteContrato até o fim de 2026
VitóriaBABet7KContrato iniciado em 2025, válido até 2027
BahiaBAEsportiva BetContrato de três meses em 2026, encerrado após o período informado
FortalezaCESem patrocinador máster de bet após rescisão com a Cassino Bet

A lista considera contratos e informações públicas verificadas até setembro de 2026. O mercado continua bastante dinâmico, por isso ações pontuais e novos acordos podem alterar o cenário.

Sport mantém Betnacional como patrocinadora máster

O Sport é um dos exemplos mais claros da presença das bets no futebol nordestino.

Em setembro, o próprio clube confirmou a Betnacional como sua patrocinadora máster ao anunciar, junto com a empresa, o jogo de despedida do goleiro Magrão. A ação foi apresentada pelo Sport em 14 de setembro.

A parceria também mostra como o relacionamento entre clubes e empresas de apostas deixou de ficar restrito à exposição da marca na camisa.

A Betnacional participou de ações de marketing, conteúdos e projetos relacionados ao clube e a seus ídolos.

Náutico levou o patrocínio das bets para o nome dos Aflitos

nautico
Nautico pega o America de NAtal foto reprodução

O Náutico tem um caso ainda mais emblemático.

Em março de 2026, o clube anunciou a renovação do contrato com a Esportes da Sorte e incorporou ao acordo os naming rights dos Aflitos.

Com isso, o estádio passou a ser chamado oficialmente de Estádio Esportes da Sorte Aflitos.

O novo contrato prevê investimento de R$ 9,6 milhões, podendo alcançar R$ 12,5 milhões caso o clube atinja metas esportivas estabelecidas no acordo. O vínculo tem duração de duas temporadas.

O caso ajuda a dimensionar a importância comercial que as empresas de apostas passaram a ter para clubes que nem sempre conseguem acessar receitas semelhantes em outros segmentos.

Ceará tem contrato de R$ 46 milhões com empresa de apostas

Ceara-x-Gremio foto divulgação
Ceara em campo foto divulgação

No Ceará, a Esportes da Sorte ocupa o principal espaço comercial da camisa do clube.

O contrato foi anunciado em maio de 2024 e prevê R$ 46 milhões em 32 meses, com validade até o final de 2026.

Segundo o próprio Ceará, o acordo se tornou o maior contrato de patrocínio da história do clube naquele momento. Assim, a marca também ganhou exposição em propriedades do clube, incluindo sede e centro de treinamento.

Isso significa que uma eventual mudança nas regras de publicidade ou patrocínio pode atingir diretamente contratos ainda em vigor.

Vitória tem contrato com a Bet7K até 2027

Vitória x Fortaleza ontem Foto Victor Ferreira EC Vitória
Vitória x Fortaleza ontem Foto Victor Ferreira EC Vitória

O Vitória também entrou no ciclo de grandes contratos com empresas de apostas.

O clube firmou parceria máster com a Bet7K para as temporadas 2025, 2026 e 2027. A demonstração financeira do clube registra o contrato e informa que ele representou um dos maiores patrocínios firmados pelo Vitória nos anos anteriores.

Por isso, o debate sobre publicidade não envolve apenas contratos que terminariam no fim de 2026. Existem acordos plurianuais que poderiam ser afetados por uma eventual mudança legislativa.

Bahia teve contrato com a Esportiva Bet, mas situação mudou

Bahia vence o Vasco em São Januário foto Rafael Rodrigues Bahia
Bahia luta pra se manter no G-6 da Série A. foto Rafael Rodrigues Bahia

O Bahia também entrou no mercado de patrocínios de apostas em 2026.

Em abril, o clube anunciou acordo de três meses com a Esportiva Bet, que ocupou a área central da camisa do time masculino e também teve presença em placas, LEDs, ativações e propriedades institucionais.

Contudo, como o contrato anunciado tinha duração de apenas três meses, o caso precisa ser separado dos contratos plurianuais mantidos por outros clubes.

Por isso, não é adequado considerar o Bahia, em setembro, como um caso consolidado de patrocinador máster de bet sem um novo anúncio oficial.

Fortaleza mostra outro lado do mercado

Fortaleza pega o Vasco em São Januario
O Fortaleza comanda as divisões de base no Nordeste.

O Fortaleza oferece um exemplo diferente.

O clube tinha a Cassino Bet como patrocinadora máster, mas a empresa encerrou antecipadamente o contrato em janeiro de 2026. O acordo poderia ser encerrado em determinadas circunstâncias previstas no contrato, e a própria empresa tomou a iniciativa da rescisão.

O contrato representava um valor de aproximadamente R$ 30 milhões por temporada, segundo informações divulgadas na época.

Assim, meses depois, em julho, o Fortaleza acumulava sete meses sem um patrocinador máster fixo.

O caso demonstra que a presença das bets no futebol não significa que todos os clubes estejam mantendo contratos permanentes com empresas do setor.

Quanto dinheiro das bets chegou ao futebol do NE?

Os contratos variam bastante conforme clube, divisão, exposição e duração do acordo.

No início de 2025, levantamento do ge mostrou que os maiores contratos de empresas de apostas com clubes nordestinos envolviam dezenas de milhões de reais por ano.

Alguns dos valores divulgados naquele período eram:

ClubeBetValor anual informado na época
BahiaViva Sorte BetR$ 40 milhões
SportBetnacionalR$ 36 milhões
FortalezaCassino BetR$ 30 milhões
VitóriaBet7KR$ 20 milhões
CearáEsportes da SorteR$ 17,1 milhões

Esses valores não devem ser tratados como retrato dos contratos atuais, porque Bahia e Fortaleza, por exemplo, tiveram mudanças em suas relações comerciais posteriormente.

Ainda assim, a dimensão ajuda a explicar por que uma possível restrição ao patrocínio preocupa os clubes.

O que pode acontecer se a publicidade das bets for proibida?

Essa é a principal questão em discussão.

Uma proibição de publicidade não necessariamente significaria o fim imediato das apostas esportivas. São questões juridicamente diferentes:

MedidaO que poderia atingir
Restrição à publicidadeAnúncios em TV, internet, rádio, mídia exterior e outros meios
Proibição de patrocínio esportivoCamisas, estádios, competições e propriedades de clubes
Restrição a jogos on-lineCassinos virtuais e modalidades específicas
Proibição das apostasOperação das plataformas de apostas de quota fixa
Reforço da fiscalizaçãoPlataformas ilegais e empresas sem autorização

Essa distinção é importante porque há propostas diferentes tramitando simultaneamente.

Na Câmara, por exemplo, o PL 3.577/2026 propõe proibir publicidade, patrocínio e promoção comercial de bets e jogos on-line. Já o PL 3.704/2026 trata especificamente da publicidade exterior e em espaços públicos.

Entretanto, também existe o PL 3.917/2024, que propõe proibir publicidade e patrocínio de bets em clubes e esportes de alto rendimento. Em julho de 2026, houve requerimento para criação de comissão especial para discutir a proposta.

No Senado, o PL 2.470/2026 discute proteção da saúde mental, do consumidor e da economia familiar e prevê restrições à publicidade e ao patrocínio de produtos considerados de maior risco. A proposta passou por audiência pública em setembro.

Governo já decidiu proibir publicidade de bets?

Não.

Esse é um ponto que precisa ficar claro.

O que existe atualmente é um conjunto de propostas legislativas e uma discussão dentro do governo sobre mudanças no mercado.

As informações mais recentes sobre uma possível Medida Provisória indicam que o texto em preparação pode retirar os jogos virtuais de cassino do mercado regulado, enquanto as apostas esportivas poderiam continuar autorizadas.

Portanto, dizer que “o governo vai acabar com as bets” seria simplificar uma discussão que ainda envolve diferentes produtos, regras e propostas.

Publicidade já ficou mais restrita em 2026

Mesmo sem uma proibição geral, a publicidade das apostas já passou por novas restrições.

Em julho, o Ministério da Fazenda informou que novas regras passaram a exigir avisos sobre os riscos associados às apostas e ampliaram as responsabilidades de operadores e agentes envolvidos na publicidade.

Outra portaria interministerial estabeleceu regras para proteção do consumidor e proibiu publicidade direcionada a crianças e adolescentes, além de criar procedimentos de verificação dos anunciantes.

Ou seja, o debate atual ocorre sobre um mercado que já está passando por uma segunda rodada de aperfeiçoamento regulatório.

E por que as apostas entraram no debate sobre endividamento?

A preocupação não se limita ao futebol.

Pesquisa realizada pelo Procon-SP com 2.724 consumidores, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, mostrou que 39,7% dos apostadores entrevistados disseram ter se endividado depois de começar a utilizar sites de apostas. O levantamento também apontou predominância de consumidores com renda de até dois salários mínimos entre os participantes.

O Tribunal de Contas da União também analisou o comprometimento da renda de beneficiários do Bolsa Família com apostas. Segundo o levantamento, cerca de 802 mil famílias, equivalentes a 18,03% das famílias beneficiárias que realizaram apostas no período analisado, comprometeram mais de 2% da renda com essas atividades. O TCU, entretanto, destacou limitações metodológicas em estudos anteriores do Banco Central e riscos de uso indevido de CPFs.

O governo adotou medidas específicas para tentar impedir que recursos destinados a programas sociais sejam utilizados em apostas.

Desde agosto, beneficiários de programas como Bolsa Família, BPC, Fies e programas de renegociação de dívidas passaram a ser impedidos de abrir ou manter contas em casas de apostas licenciadas. O sistema criado pelo Serpro já havia impedido o acesso de mais de 3 milhões de pessoas desde sua implantação.

Bet. Foto_ Freepik
Bet. Foto_ Freepik

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O outro lado: clubes dizem que o dinheiro das bets virou fonte importante de receita

Enquanto órgãos públicos e especialistas discutem os efeitos sociais das apostas, clubes e federações destacam outro aspecto: a dependência financeira criada pelo crescimento dos patrocínios.

Em setembro, clubes brasileiros divulgaram manifesto em defesa do mercado regulado e afirmaram que as empresas de apostas autorizadas se transformaram em uma das principais fontes de receita do esporte.

Ademais, segundo o documento, os investimentos chegam também a clubes menores, divisões de acesso, categorias de base e outras estruturas esportivas.

O movimento ganhou força depois que clubes paulistas se reuniram na Federação Paulista de Futebol para discutir projetos que restringem a publicidade de bets.

A discussão, portanto, passou a envolver uma questão maior: como reduzir os danos associados às apostas sem produzir uma mudança abrupta nas receitas dos clubes e sem ampliar o espaço do mercado ilegal?

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.