No último domingo à noite, logo após a votação do segundo turno para presidente, a torcida do Bahia ainda estavam digerindo o resultado da eleição quando foram surpreendidos por uma publicação nas redes sociais de um jogador do próprio clube. Willian José, o centroavante de 34 anos nascido em Alagoas e que veste a camisa do Bahia, repostou um vídeo que chamava o Nordeste de “câncer do país” e acusava os nordestinos de “só quererem auxílio do Estado”. Para um clube que se orgulha de sua identidade nordestina, isso soou como um tiro no próprio pé.
O que aconteceu: um “deslize” ou uma declaração de posição?
As falas do vídeo são do influenciador Emerson Barreto e são extremamente agressivas. Além da frase amplamente citada — “o Nordeste é o câncer do país” —, ele afirma que os eleitores nordestinos apoiaram Lula apenas para receber “auxílio do Estado”, misturando ataques pessoais e palavrões. Willian José compartilhou esse conteúdo nos stories do Instagram, justamente no momento em que o resultado da eleição era divulgado.
A reação da torcida do Bahia foi imediata. Nas redes sociais, surgiram rapidamente pedidos para que o clube rescinda o contrato do jogador. Torcedores apontaram o que consideraram uma “bofetada no povo nordestino”: um alagoano que recebe salário do Bahia repostando um vídeo que ofende todo o Nordeste. A contradição lógica é gritante — o Bahia é o clube de Salvador e uma das bandeiras do futebol nordestino, e o próprio Willian José nasceu no Nordeste.
A defesa do jogador e o silêncio do clube
Diante da repercussão negativa, Willian José publicou um texto nos stories no dia seguinte. Sua versão é que queria expressar insatisfação com os políticos, não atacar o povo nordestino: “Sou nordestino e moro no Nordeste. Minha família é nordestina! Sei o que nosso povo passa e o quanto luta. Mas sei também o que os políticos fazem com o nosso povo e nos fazem reféns deles.”
A resposta não foi um pedido de desculpas, mas sim um esclarecimento de posição. O problema é que as linguagens grosseiras e preconceituosas do vídeo que ele repostou não desaparecem só porque “a intenção era criticar políticos”. É legítimo criticar a política, mas quando o conteúdo compartilhado chama todo um povo de “câncer”, a margem para justificativas é muito estreita.
Segundo a apuração da imprensa, o Bahia tratou o assunto internamente após o treino de segunda-feira, e Willian José apagou a repostagem. O clube não divulgou nota oficial, mas considerando a histórica defesa da identidade nordestina por parte do Bahia, o silêncio já é, por si só, uma tomada de posição.
Os números por trás do contexto político
Para entender por que aquele vídeo foi repostado naquele momento, é preciso olhar para alguns números. Na Bahia, Lula obteve 71,31% dos votos, uma das maiores vantagens percentuais do Nordeste. A região como um todo deu a Lula cerca de 69% dos votos válidos, vencendo em todos os nove estados. A cidade natal de Willian José, Porto Calvo, em Alagoas, é uma exceção: lá, Flávio Bolsonaro venceu por uma margem apertada, com 51,01% contra 48,99%. Um jogador vindo de uma cidade pequena de maioria conservadora repostou um vídeo que ataca todo o Nordeste — essa pista talvez explique a motivação, mas não as consequências.

Não é só “opinião diferente”
Há quem defenda o jogador dizendo que ele tem liberdade de expressão política. Isso é verdade. Mas entre a liberdade de expressão e a disseminação de conteúdo ofensivo existe uma linha clara. O vídeo que Willian José repostou não é uma crítica política fundamentada, mas um desabafo emocional recheado de palavrões e preconceito regional. Como figura pública — e, mais ainda, como nordestino que joga em um clube nordestino —, ao amplificar esse tipo de fala, ele precisa arcar com as consequências na opinião pública.
O pedido de rescisão por parte da torcida é compreensível do ponto de vista emocional, mas pouco viável na prática. O contrato vai até o fim de 2026, o jogador perdeu a titularidade nesta temporada e está sem marcar gols desde abril. A saída mais provável para o Bahia é uma separação natural ao fim da temporada, e não o pagamento de uma rescisão agora. Mas as marcas desse episódio não vão sumir facilmente: um jogador nordestino, jogando no Nordeste, repostou um vídeo ofendendo o Nordeste. Esse rótulo vai acompanhá-lo até o dia em que deixar Salvador.


