Início » Cotidiano » Povos tradicionais do Nordeste se unem a aliança inédita para defender Mata Atlântica

Cotidiano

Povos tradicionais do Nordeste se unem a aliança inédita para defender Mata Atlântica

Enquanto o mundo fala em crises climáticas e metas de preservação, um grupo historicamente invisibilizado resolveu tomar a liderança. No último Dia Nacional da Mata Atlântica (27 de maio), representantes de povos tradicionais de todo ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
28 de maio de 2026 - às 08:24
Atualizado 28 de maio de 2026 - às 08:24
5 min de leitura

Enquanto o mundo fala em crises climáticas e metas de preservação, um grupo historicamente invisibilizado resolveu tomar a liderança. No último Dia Nacional da Mata Atlântica (27 de maio), representantes de povos tradicionais de todo o país — com participação do Nordeste — lançaram em São Paulo uma aliança inédita para proteger o bioma que já foi berço da história brasileira e hoje vive sitiado.

A princípio, o nome é ambicioso e preciso: Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica. O lançamento ocorreu na Faculdade de Direito da USP, e o recado foi direto: não há preservação sem direitos territoriais, e não há futuro sem a floresta em pé.

Quem compõe essa aliança?

Ao mesmo tempo, a coalizão reúne uma diversidade impressionante de grupos, muitos deles presentes em diversos estados nordestinos:

  • Povos indígenas (como os Guarani, Kerexu e outros)
  • Quilombolas
  • Caiçaras e caboclos
  • Marisqueiras e pescadores artesanais
  • Povos de terreiro

A coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa, Ivanildes Kerexu, da Aldeia Rio Bonito (Ubatuba/SP), resume o espírito da iniciativa:

“O que manteve até hoje a Mata Atlântica sempre foram as comunidades tradicionais que nela vivem e que estão ali resistindo.”

Para ela, a aliança é um projeto de união que busca políticas públicas e, acima de tudo, o reconhecimento de que preservação ambiental e direitos humanos caminham juntos.

Por que agora? A mata pede socorro

Os números assustam. Originalmente, a Mata Atlântica cobria 15% do território brasileiro em 17 estados. Hoje, restam apenas cerca de 12,4% de sua vegetação original. Apesar disso, o bioma ainda abriga mais de 20 mil espécies de plantas e 2 mil de vertebrados — muitas exclusivas.

Mais impressionante: é da Mata Atlântica que vem a água para mais de 145 milhões de brasileiros, ou seja, 70% da população do país. Sem ela, cidades inteiras colapsam.

Mata Atlântica. Foto: TV Brasil
Mata Atlântica. Foto: TV Brasil

Ameaças reais e um novo perigo: terras raras

Os guardiões da mata não estão alarmados à toa. Entre as ameaças listadas estão:

  • Grandes empreendimentos e especulação imobiliária
  • Turismo exploratório (com destaque para novos resorts)
  • Uso de agrotóxicos
  • Exploração de petróleo e combustíveis fósseis

Mas há um alerta novo, levantado pela deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas Sonia Guajajara (PSOL-SP) : a corrida internacional por terras raras e minerais críticos.

“Se as terras raras forem exploradas da mesma forma, sem considerar direitos, sem considerar salvaguardas, sem considerar consulta livre, prévia e informada, as consequências não serão diferentes do que é a exploração do petróleo para nossos povos”, alertou Guajajara durante o evento.

LEIA TAMBÉM:

A voz do Nordeste na aliança

O coordenador executivo da aliança é José Wellington Fontes Nascimento, o Wellington Quilombola, coordenador do Movimento Quilombola de Sergipe e pesquisador. Dessa forma, ele explica que o problema da Mata Atlântica atravessa todos os estados e atinge diretamente o modo de vida das comunidades.

Em sua comunidade, Quilombo Porto d’Areia (SE) , a destruição do habitat já trouxe animais silvestres para as ruas:

“Já se tornou comum encontrarmos nas ruas animais como cobra, paca, tatu e outros que estão tendo seu habitat destruído. Por conta disso, eles procuram abrigo nas residências.”

Wellington reforça que a aliança quer sentar à mesa com governos federal, estaduais e municipais para propor mudanças reais na política ambiental e territorial.

“A política que nós precisamos é a política da boa vivência. Não será com tanta exploração e destruição que a gente vai conseguir vencer.”

Detalhes da Aliança

ItemInformação
Nome da aliançaAliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica
Data de lançamento27 de maio de 2026 (Dia Nacional da Mata Atlântica)
LocalFaculdade de Direito da USP, São Paulo
Quem participaIndígenas, quilombolas, caiçaras, caboclos, marisqueiras, pescadores artesanais, povos de terreiro
Principal objetivoDefender a Mata Atlântica e garantir direitos territoriais
Principais ameaças ao biomaGrandes empreendimentos, especulação imobiliária, turismo exploratório, agrotóxicos, petróleo, terras raras
Área original da Mata Atlântica15% do território brasileiro (17 estados)
Remanescente atualAproximadamente 12,4%
População dependente da mataMais de 145 milhões de brasileiros (70% da população)
Coordenador executivoWellington Quilombola (Movimento Quilombola de Sergipe)
Apoio político destacadoDeputada Sonia Guajajara (PSOL-SP), ex-ministra dos Povos Indígenas

LEIA TAMBÉM:

E agora? Qual o próximo passo?

Em suma, a aliança não é apenas simbólica. Ela nasce como uma rede de proteção ativa, com capacidade de articular denúncias, propor políticas públicas e, principalmente, incomodar estruturas poderosas — econômicas e políticas — que enxergam a floresta como obstáculo, e não como berço da vida.

Como disse Wellington Quilombola:

“A gente quer chamar atenção e queremos sentar à mesa para conversar para tentar mudar essa situação.”

Assim, em um país onde mais da metade da Mata Atlântica já se perdeu, e onde comunidades tradicionais seguram as pontas da floresta com as mãos, essa aliança é mais do que bem-vinda. É urgente.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.