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Por que o Nordeste precisa debater a dermatite atópica?

Existe uma doença de pele que atinge não só a pele. Ela atravessa o sono, corrói a saúde mental e chega até a autoestima de quem convive com ela. E no Nordeste, região em que ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
23 de setembro de 2026 - às 08:17
Atualizado 23 de setembro de 2026 - às 08:17
9 min de leitura

Existe uma doença de pele que atinge não só a pele. Ela atravessa o sono, corrói a saúde mental e chega até a autoestima de quem convive com ela. E no Nordeste, região em que o calor e o suor são constantes, ela aparece com mais vigor e por isso precisa de um debate constante. Em suma, a dermatite atópica atinge a todos sem distinção de classe social. Contudo, pode ser amenizada com algumas ações pontuais.

Em suas manifestações crônicas, a coceira é tão intensa que gera feridas. Dessa forma, a pele fica sensível ao menor toque. De tecido a água, tudo dói. Essa é a realidade de milhares de pacientes que convivem com a dermatite atópica, uma doença inflamatória e crônica cujo principal sintoma é a coceira, muitas vezes extrema.

Neste 23 de setembro, data em que se celebra o Dia Nacional de Conscientização da Dermatite Atópica — oficializado no Brasil pela Lei 14.916/24 —, é fundamental ampliar o debate sobre uma condição que carrega forte estigma social, apesar de não ser contagiosa.

“Eu sentia como se tivesse alergia ao mundo”

Em entrevista para a Agência Brasil, a estudante de medicina Clara Emery, 23 anos, afirma que tem dermatite atópica desde que nasceu. Desse modo, em crises mais severas, precisou tomar antibióticos para evitar que as feridas — que ficavam em carne viva — infeccionassem. Deitar na cama, encostar no travesseiro, tomar banho: tudo virava motivo de sofrimento.

“Tive muitas crises de choro por não saber o que fazer”, conta.

Ao mesmo tempo, a jovem lembra vividamente da infância e da evolução da doença. “Minha mãe fala que assim que eu saí da barriga, eu já tinha dermatite atópica. Foi muito angustiante conviver com essa doença.”

Em resumo, a dermatite costuma atacar regiões de dobras — atrás dos joelhos, nos cotovelos e no pescoço. No caso de Clara, também aparece ao redor dos olhos, na face e em áreas de maior fricção, como as mãos. Entre os gatilhos, ela cita alimentos, sol, grama, suor, fungos e ácaros.

“Qualquer objeto de pelúcia, tapete, cachorro e gato. Eu sentia como se tivesse alergia ao mundo. Além disso, períodos de estresse na infância, na adolescência e no início da faculdade exacerbavam muito a alergia.”

O preconceito também marcou sua trajetória. “Na escola, eu tinha uns 10 anos, me perguntaram se eu tinha hanseníase, se tinha sífilis, se eu era HIV positivo. Havia muito preconceito”, lamenta a jovem, que hoje faz tratamento imunobiológico — medicação que atua no sistema imune para conter as crises graves.

O problema é o custo: apenas uma caixa do medicamento passa de R$ 10 mil. Contudo, no caso de Clara, o valor é coberto integralmente pelo plano de saúde.

“Já fiz tratamento com corticoides várias vezes, todo tipo de pomada e hidratante, tentei medidas homeopáticas, mas o que funcionou mesmo foi o imunobiológico. Nunca tive tanta paz para conviver com essa doença.”

SUS tem medicamento

Antes de mais nada, o acesso à medicação pode ocorrer também via SUS. Na Paraíba, por exemplo, é possível ter acesso à Ciclosporina, imunossupressor que atua diretamente no combate à doença.

O impacto silencioso na qualidade de vida

A dermatologista Rosana Lazzarini, integrante da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), confirma que o impacto da doença na qualidade de vida é enorme. A coceira intensa prejudica o sono e reduz o rendimento no trabalho e na escola. Segundo ela, 40% das crianças com dermatite atópica terão de conviver com a doença na vida adulta.

“O impacto na vida da criança é grande. É uma doença crônica, há frequência de consultas, perda de aulas, afastamento social (deixa de brincar, de ir a festas) e internações que irão afetar o desenvolvimento psicossocial”, afirma.

O estigma social agrava ainda mais o quadro. As marcas visíveis pelo corpo levam, muitas vezes, ao afastamento do convívio social e podem ser motivo de bullying.

SUS. Foto: Governo Federal
O SUS democratiza o atendimento médico em todo o Brasil. Foto: Governo Federal

Não é contagiosa e isso precisa ser dito

Para o dermatologista Roberto Takaoka, presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (AADA), o desconhecimento do público geral é um dos maiores obstáculos enfrentados pelos pacientes.

“Os pacientes costumam enfrentar problemas de preconceito e bullying por desconhecimento do público em geral, principalmente por acharem que se trata de uma doença contagiosa. Nesse contexto, campanhas de conscientização podem ajudar. Além disso, é comum a doença ser acompanhada por distúrbios do sono, depressão e isolamento social”, explica.

Segundo ele, as principais demandas das famílias são por indicação de médicos e de tratamentos — muitas vezes com expectativas irreais.

“As famílias chegam com demandas de tratamentos rápidos e milagrosos, sem entender que a dermatite atópica é uma doença crônica com períodos de melhora e piora, e que, na maioria dos casos, costuma melhorar com a idade. É muito importante salientar que a dermatite atópica é uma doença complexa e multifatorial. Além do aspecto físico, ela é influenciada por fatores emocionais e sociais.”

A missão da AADA é promover a saúde do portador de dermatite atópica por meio da arte, da ciência e da educação. A entidade mantém grupos de apoio para pacientes e familiares, fornece materiais educativos, realiza campanhas de conscientização e podcasts explicativos, além de trabalhar junto a médicos e outros profissionais de saúde.

“Coça muito, arde, dói, abre feridas”

A jornalista Rayane Lopes, 34 anos, moradora do Recanto das Emas (DF), teve a primeira crise aos 18 anos. “Na primeira crise, que foi bem forte, surgiu no corpo inteiro, até pegando a virilha e a barriga. Hoje em dia, quando a doença se manifesta, surge mais na barriga e entre os dedos das mãos.”

Ela conta que as manchas e a coceira forte aparecem em períodos de muito estresse. Após o enterro de uma pessoa próxima, o corpo inteiro se encheu de manchas avermelhadas e feridas. “Tenho várias manchas e cicatrizes pelo corpo. Quando está forte, tomo um corticoide que alivia.”

Para controlar a doença, evita bucha no banho e hidrata a pele com frequência. “Coça muito, arde, dói, abre feridas. Além de tomar remédio, não tem muito o que fazer, é esperar passar.”

Rayane também já viveu situações constrangedoras. “As pessoas têm medo de pegar a doença. Evito usar roupa que deixe à mostra a mancha, evito tomar sol. A dermatite aparece em momentos de muito estresse, então o sofrimento psicológico já está ali.”

Diagnóstico é clínico e tratamento exige constância

Não existe uma causa definida para a dermatite atópica, mas há fatores genéticos (os mesmos associados a asma e rinite), ambientais e imunológicos que contribuem para a manifestação da doença.

O diagnóstico é clínico — não há exames laboratoriais específicos. A avaliação médica considera a presença das lesões, a cronicidade, os períodos com e sem lesões e a coceira de difícil controle.

O tratamento se baseia em pilares bem definidos:

  • Cuidados com a pele: uso de cremes e loções hidratantes para preservar a barreira cutânea;
  • Banho adequado: rápido, não quente, com pouco ou nenhum sabonete;
  • Medicamentos para a coceira: corticosteroides tópicos adequados a cada região da pele;
  • Casos graves: imunossupressores por via oral, como metotrexato ou ciclosporina;
  • Fototerapia: UVB de banda estreita, com melhora principalmente da coceira;
  • Casos refratários: medicações específicas que atuam em pontos do processo inflamatório, de alto custo e indicadas quando as outras tentativas falham.

A hidratação é um dos pilares mais importantes — e também um dos mais custosos. A pele muito seca exige aplicação de creme ou loção de 2 a 3 vezes ao dia, o que pesa no orçamento das famílias.

Um retrato da dermatite atópica no Brasil

AspectoInformação
O que éDoença inflamatória e crônica da pele
Principal sintomaCoceira intensa, muitas vezes extrema
É contagiosa?Não
Regiões mais afetadasDobras (atrás dos joelhos, cotovelos, pescoço), face e mãos
Gatilhos comunsAlimentos, sol, grama, suor, fungos, ácaros, estresse
DiagnósticoClínico (não há exame laboratorial específico)
Fatores associadosGenéticos (asma e rinite), ambientais e imunológicos
Proporção de crianças que seguem com a doença na vida adulta40%
Impactos além da peleDistúrbios do sono, depressão, isolamento social, bullying
Tratamentos disponíveisHidratantes, corticoides tópicos, imunossupressores orais, fototerapia UVB, imunobiológicos
Custo de referênciaImunobiológico: mais de R$ 10 mil por caixa
Disponibilidade no SUSMedicamentos mais modernos de alto custo não estão disponíveis; apenas na rede privada
Data de conscientização23 de setembro — Dia Nacional de Conscientização da Dermatite Atópica (Lei 14.916/24)

Por que essa conversa importa

A dermatite atópica não é “apenas” uma doença de pele. É uma condição que molda rotinas, limita experiências, afeta o aprendizado, o trabalho e as relações. Ela exige tratamento contínuo, hidratação diária e, muitas vezes, medicamentos de alto custo que ainda não chegam ao SUS.

Falar sobre o tema — em casa, na escola, no trabalho e nas políticas públicas — é o primeiro passo para reduzir o preconceito, melhorar o acolhimento e garantir que pacientes como Clara e Rayane não precisem enfrentar sozinhos o peso de uma doença invisível para muitos, mas dolorosamente presente para quem a vive.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.