Itacaré, no litoral sul da Bahia, conquistou um espaço pouco comum no turismo internacional. Há mais de uma década, a cidade recebe jovens israelenses que incluem o destino em viagens prolongadas pela América Latina, especialmente depois de cumprir o serviço militar obrigatório em seu país.
A princípio, a presença desse público ganhou força a partir de 2013, impulsionada por uma combinação de fatores: a divulgação de destinos baianos em uma produção televisiva israelense, a tradição das viagens após o serviço militar e os atrativos naturais de Itacaré.
Além disso, o boca a boca entre viajantes ajudou a consolidar a cidade no roteiro. Com o passar dos anos, restaurantes, hospedagens e outros estabelecimentos locais também passaram a adaptar seus serviços para receber visitantes desse mercado.
Série de televisão ajudou a divulgar Itacaré em Israel
Um dos marcos apontados para a popularização de Itacaré entre os jovens israelenses foi a série de televisão Malabi Express.
A produção mostrava um grupo de amigos viajando pelo litoral da Bahia depois de cumprir o serviço militar. Nesse percurso, destinos como Salvador, Morro de São Paulo e Itacaré ganharam visibilidade entre os espectadores.
Assim, a partir daí, a cidade passou a aparecer com mais frequência em guias de viagem em hebraico e nas recomendações de pessoas que já conheciam a região.
Além disso, é importante destacar, porém, que 2013 representa um marco de popularização, e não necessariamente o ano em que os primeiros turistas israelenses chegaram a Itacaré. Não há um registro oficial que determine o início absoluto desse fluxo.
A tradição das viagens depois do serviço militar
Para entender essa relação turística, é necessário conhecer um hábito cultural de Israel.
Depois de cumprir o serviço militar, muitos jovens israelenses fazem uma viagem internacional prolongada, conhecida como post-army trip. A experiência funciona como uma transição entre o período militar e uma nova etapa da vida.
Entretanto, nesse modelo, os viajantes costumam economizar dinheiro e passar semanas ou meses conhecendo outros países.
Uma pesquisa citada pelo pesquisador Chaim Noy em reportagem publicada em 2019 estimou que entre 30 mil e 50 mil israelenses realizavam esse tipo de viagem por ano. Uma parcela expressiva escolhia destinos da América Latina.
Assim, o Brasil entrou no roteiro de muitos desses viajantes. E Itacaré encontrou características que combinam com esse perfil: praias, surfe, natureza, atividades de aventura e uma estrutura turística que permite estadias mais longas.
Praias, surfe e natureza ajudam a explicar a escolha
Itacaré reúne diferentes paisagens em uma mesma região. A cidade combina praias urbanas, enseadas cercadas pela Mata Atlântica, trilhas e opções de esportes ao ar livre.
Entre os destinos mais conhecidos estão:
- Praia da Tiririca: referência para o surfe e conhecida pelas ondas.
- Praia do Resende: próxima ao centro e procurada por visitantes e surfistas.
- Praia da Engenhoca: cercada pela vegetação e acessível por trilha.
- Prainha: um dos cartões-postais naturais de Itacaré.
- Praia da Concha: opção de águas mais tranquilas e estrutura turística.
Além das praias, os visitantes encontram cachoeiras, passeios de barco, rafting, trilhas e outras experiências de ecoturismo.
Essa variedade favorece quem deseja permanecer mais tempo no destino. Em vez de uma viagem concentrada em poucos dias, o visitante pode alternar atividades esportivas, descanso e passeios pela região.
Como Itacaré se adaptou ao público internacional?
Com a consolidação desse fluxo, parte do setor turístico local passou a oferecer serviços voltados aos visitantes israelenses e a outros estrangeiros.
Entre as adaptações identificadas estão cardápios em hebraico e inglês, restaurantes com opções da culinária israelense e judaica, atendimento em diferentes idiomas e hospedagens preparadas para estadias prolongadas.
Sendo assim, a cidade também chegou a contar com um Beit Chabad, instituição ligada ao movimento judaico Chabad-Lubavitch, que oferece apoio religioso e atividades para viajantes judeus.
Essas estruturas ajudam a explicar como um fluxo inicialmente impulsionado por recomendações e referências culturais ganhou continuidade ao longo dos anos.
Quantos israelenses visitam Itacaré por ano?

Uma estimativa divulgada em março de 2026 chamou atenção para a dimensão desse público.
Durante uma discussão na Câmara Municipal, um vereador afirmou que aproximadamente 3 mil israelenses visitam Itacaré por ano, com possibilidade de permanência de até três meses.
Esse número, entretanto, precisa ser interpretado com cautela. Trata-se de uma estimativa mencionada por um representante político, e não de um levantamento oficial consolidado do fluxo de turistas israelenses.
Além disso, outro dado ajuda a dimensionar a presença estrangeira na cidade. Um levantamento citado pela publicação Itacaré na Cena, com informações de 28 estabelecimentos de hospedagem, identificou cerca de 6.200 hóspedes estrangeiros durante a alta temporada de 2025.
Esse total reúne visitantes de diferentes nacionalidades. Portanto, não representa exclusivamente o público israelense.
Turismo israelense movimenta diferentes setores da economia
A permanência prolongada dos visitantes pode gerar oportunidades para vários segmentos da economia local.
Assim, diferentemente de quem permanece apenas um fim de semana, o turista que passa semanas ou meses na cidade tende a utilizar serviços de forma recorrente.
| Segmento | Atividades beneficiadas |
|---|---|
| Hospedagem | Pousadas, hotéis, hostels e aluguel por temporada |
| Alimentação | Restaurantes, bares, cafés e mercados |
| Esportes | Escolas de surfe e aluguel de equipamentos |
| Turismo | Guias, trilhas e passeios de barco |
| Serviços | Transporte, lavanderias e comércio |
| Cultura | Gastronomia, eventos e serviços especializados |
Além disso, a presença de visitantes internacionais pode estimular a contratação de profissionais que dominam outros idiomas e incentivar a adaptação dos empreendimentos às necessidades de diferentes públicos.
Entretanto, para medir o impacto econômico real desse segmento, seria necessário conhecer o gasto médio dos visitantes, o tempo efetivo de permanência e a participação desse público na ocupação dos meios de hospedagem. Os dados disponíveis não permitem calcular com precisão quanto os turistas israelenses movimentam anualmente na economia de Itacaré.
Quando os turistas israelenses costumam visitar Itacaré?
Segundo declaração do secretário de Comunicação de Itacaré ao Jornal Correio, em novembro de 2026, a concentração maior desse público ocorre entre dezembro e maio.
Contudo, a presença também acontece em outros períodos, mas esses meses concentram a temporada mais conhecida dos viajantes israelenses na cidade.
Com isso, o calendário reforça a importância desse mercado para o turismo local, especialmente porque a permanência prolongada pode distribuir o consumo entre hospedagem, alimentação, transporte e atividades de lazer.
Polêmicas por questões culturais
Neste ano, diversos relatos de problemas ligados a assédio, brigas e desrespeito a comunidade local, surgiram nas redes sociais e levantaram discursões sobre a presença massiva de israelenses na região.
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Uma rota turística construída ao longo dos anos
Portanto, a presença israelense em Itacaré não surgiu de uma única campanha de divulgação. O destino ganhou espaço gradualmente, a partir de referências culturais, recomendações entre viajantes e características naturais que combinam com o perfil de quem procura uma experiência prolongada.
A trajetória também mostra como um destino do Nordeste pode conquistar um mercado internacional específico sem depender exclusivamente de grandes campanhas institucionais.
No caso de Itacaré, a combinação entre praias, surfe, natureza e circulação de informações entre os próprios viajantes ajudou a construir uma rota que atravessa mais de uma década.
Afinal, para o turismo baiano, esse movimento representa um exemplo de como comportamento de viagem, cultura e promoção espontânea podem contribuir para consolidar destinos brasileiros no mapa internacional.



