Aquecimento recorde do Oceano Pacífico coincide com temperaturas elevadas no Nordeste, mas fatores locais também influenciam o calor e a baixa umidade
O calor registrado no último fim de semana, nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, voltou a chamar a atenção de moradores do Rio Grande do Norte, da Paraíba e de Pernambuco. Em várias áreas do Nordeste, a previsão indicava temperaturas elevadas, predomínio de sol e pouca chuva.
Mas será que o El Niño tem relação com esse cenário?
A resposta é sim, existe uma possível relação climática. Entretanto, não é correto atribuir diretamente ao fenômeno todo o calor registrado nesses dois dias. O El Niño pode alterar os padrões de circulação atmosférica e favorecer períodos mais quentes e secos em partes do Nordeste. Ainda assim, fatores como nebulosidade, ventos, umidade e condições locais também influenciam a temperatura.
O alerta ganha importância porque o fenômeno alcançou níveis históricos de aquecimento no Oceano Pacífico e poderá continuar influenciando o clima nos próximos meses.
El Niño alcança marcas históricas no Oceano Pacífico
De acordo com informações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño de 2026 apresentou anomalias expressivas na temperatura da superfície do mar durante outubro.
Na região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para monitorar o fenômeno, a anomalia chegou a +2,47 °C. Já na região Niño 3, o valor alcançou +3,56 °C.
Esses números representam o aquecimento da superfície do Oceano Pacífico em relação à média histórica. Portanto, não significam que a temperatura do ar no Nordeste tenha aumentado nessa mesma proporção.
O fenômeno começou a se configurar em junho e ganhou intensidade rapidamente. Além disso, o monitoramento climático indica possibilidade de manutenção de condições fortes ou muito fortes até o início de 2027.
Como o El Niño pode influenciar o clima do Nordeste?
O El Niño acontece quando as águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial ficam mais quentes do que a média por um período prolongado. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
No Nordeste brasileiro, o fenômeno costuma favorecer condições mais secas em determinadas áreas, especialmente quando interfere na atuação dos sistemas atmosféricos responsáveis pela formação de chuva.
Com menos nebulosidade e precipitação, o solo e a superfície recebem mais radiação solar durante o dia. Consequentemente, as temperaturas podem subir.
Entretanto, os efeitos não são iguais em todos os estados nem acontecem da mesma maneira durante todo o período. Outros sistemas meteorológicos também podem reforçar ou reduzir o calor.
Como ficou a previsão para RN, Paraíba e Pernambuco?
As previsões consultadas antes do último fim de semana apontavam predomínio de sol, calor e pouca chuva em grande parte do Nordeste.
Na Paraíba, por exemplo, as projeções indicavam máximas de até 40 °C em Patos, 38 °C em Pombal, 36 °C em Cabaceiras e 34 °C em Campina Grande.
Em Pernambuco, a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) já havia previsto temperaturas máximas acima da média entre setembro e novembro, com possibilidade de intensificação das condições associadas ao El Niño.
No Rio Grande do Norte, a previsão regional também indicava condições favoráveis ao calor e ao predomínio de sol. Contudo, não foi localizada uma série de temperaturas observadas que permita quantificar o episódio especificamente no estado.
| Estado | O que indicavam as previsões | Relação com o El Niño |
|---|---|---|
| Rio Grande do Norte | Predomínio de sol e calor | Possível contribuição para condições mais quentes e secas |
| Paraíba | Até 40 °C em Patos e temperaturas elevadas em outras cidades | Cenário compatível com tempo seco, sem comprovação de causa direta |
| Pernambuco | Máximas acima da média entre setembro e novembro | Apac apontou possibilidade de intensificação pelo El Niño |
Importante: os valores apresentados para a Paraíba são previsões meteorológicas, e não temperaturas máximas efetivamente registradas nos municípios.
Três fatores ajudam a explicar o calor

Além da influência possível do El Niño, outros fatores ajudam a entender por que o calor pode ficar mais intenso no interior nordestino.
1. Pouca nebulosidade e chuva
Quando as nuvens aparecem em menor quantidade, a radiação solar alcança mais diretamente a superfície. Dessa forma, o solo aquece e contribui para elevar a temperatura do ar durante o dia.
2. Período naturalmente quente e seco
O fim de outubro e o início de novembro coincidem com uma época de temperaturas elevadas e redução das chuvas em muitas áreas do interior nordestino. Portanto, o calor também está relacionado ao comportamento sazonal do clima.
3. Influência do El Niño
O fenômeno pode modificar a circulação atmosférica e favorecer períodos prolongados de chuva abaixo da média e temperaturas acima do normal em partes da região.
A Climatempo informou, em 30 de outubro, que grande parte do Nordeste enfrentaria condições mais secas e temperaturas elevadas. Em áreas do interior, a umidade relativa do ar poderia ficar entre 20% e 30%.
El Niño pode manter o calor nos próximos meses?
A tendência merece atenção. Um boletim do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), publicado em 29 de outubro, indicou que o El Niño poderá contribuir para temperaturas acima da média e chuvas abaixo do normal em partes do Nordeste entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Isso não significa que todos os dias serão mais quentes ou que não haverá chuva nos estados nordestinos. A previsão climática trabalha com tendências para períodos mais longos, enquanto a previsão do tempo avalia as condições de dias específicos.
Assim, uma região pode enfrentar vários dias de calor intenso e, em seguida, registrar chuva localizada ou redução temporária das temperaturas.

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O que podemos afirmar sobre o calor do último fim de semana?
As informações disponíveis permitem estabelecer três pontos:
- O El Niño está muito forte: o Oceano Pacífico apresentou anomalias expressivas de temperatura em outubro.
- O Nordeste tinha previsão de calor: os prognósticos meteorológicos indicavam temperaturas elevadas e pouca chuva no período.
- A causa direta não está comprovada: os dados consultados não permitem afirmar que o El Niño provocou sozinho o calor registrado em 31 de outubro e 1º de novembro no RN, na Paraíba e em Pernambuco.
Portanto, existe uma relação climática possível entre o fenômeno e o cenário observado, mas o calor também depende de fatores regionais e das condições meteorológicas de cada localidade.
Com a possibilidade de manutenção do El Niño nos próximos meses, acompanhar as previsões do Inmet, da Apac e dos órgãos estaduais será importante para entender como o fenômeno poderá influenciar as temperaturas e as chuvas no Nordeste.



