Procedimento inédito foi realizado em Fortaleza pelo SUS, em parceria entre Hemoce e Hospital Universitário Walter Cantídio. Paciente de 31 anos recebeu medula de familiar compatível e se recupera em casa.
O Ceará realizou o primeiro transplante de medula óssea do Norte e Nordeste para tratar uma paciente com doença falciforme. O procedimento aconteceu em setembro, no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), em Fortaleza, por meio de uma parceria com o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce).
A paciente Jaiane Ribeiro, de 31 anos, mora em Juazeiro do Norte e convive com a doença desde a infância. Ela recebeu a medula de um familiar que apresentou 100% de compatibilidade genética. Após o procedimento, considerado bem-sucedido pelas equipes médicas, Jaiane recebeu alta e segue em recuperação em casa.
A conquista representa um avanço para a assistência pública em saúde no Nordeste. Além disso, amplia as possibilidades de tratamento para pessoas com formas graves da doença falciforme que atendam aos critérios médicos para receber um transplante.
Como foi realizado o transplante em Fortaleza?
O Hospital Universitário Walter Cantídio realizou o procedimento em 9 de setembro, enquanto o Hemoce participou de diferentes etapas do tratamento.
O acompanhamento da paciente começou em 2017, no Hemocentro Regional do Crato. A equipe identificou a possibilidade de realizar o transplante e encaminhou Jaiane para avaliação especializada em Fortaleza.
Antes da cirurgia, a paciente passou por sessões de eritrocitaférese no Hemoce. Esse procedimento utiliza uma máquina para retirar parte das hemácias do sangue e substituí-las por células saudáveis. Dessa maneira, a equipe reduz a concentração de hemoglobina S, característica da doença falciforme, e ajuda a diminuir riscos associados ao procedimento.
O Hemoce também garantiu o suporte transfusional durante o transplante, com o fornecimento de sangue e plaquetas.
A atuação conjunta entre as instituições envolveu, portanto, acompanhamento clínico, preparação da paciente, identificação do doador compatível e suporte especializado durante o tratamento.

Quem pode receber transplante para doença falciforme?
O transplante de medula óssea pode oferecer a possibilidade de cura da doença falciforme. Entretanto, os médicos não indicam o procedimento para todos os pacientes.
A equipe avalia cada caso individualmente e considera principalmente a gravidade da doença, o histórico de complicações, as condições clínicas e a disponibilidade de um doador compatível.
Entre as situações que podem levar à indicação estão:
- Histórico de acidente vascular cerebral (AVC) ou alterações em exames que indiquem risco elevado;
- Crises vaso-oclusivas frequentes e intensas, que provocam dores e não respondem adequadamente ao tratamento convencional;
- Complicações em órgãos, como disfunção renal;
- Osteonecrose e retinopatia com perda de visão;
- Complicações relacionadas a transfusões frequentes, como a aloimunização.
Segundo especialistas do HUWC, a indicação costuma considerar preferencialmente pacientes mais jovens, pois o transplante pode apresentar riscos e exige avaliação cuidadosa antes da realização.
Além disso, o procedimento não garante cura em todos os casos. Entre as possíveis complicações estão a doença do enxerto contra o hospedeiro e a falha da enxertia, quando as células transplantadas não produzem o resultado esperado.
Por isso, o paciente precisa de acompanhamento médico prolongado, inclusive depois da alta hospitalar.
O que é a doença falciforme?
A doença falciforme é uma condição genética hereditária que altera a hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue.
Essa alteração modifica o formato das hemácias, que podem assumir uma aparência semelhante a uma foice. Além de dificultar a circulação sanguínea, as células alteradas podem provocar anemia, crises de dor e lesões em diferentes órgãos.
A doença acompanha o paciente durante toda a vida e exige atendimento especializado. O tratamento convencional pode incluir medicamentos, acompanhamento clínico e transfusões de sangue, conforme a necessidade de cada pessoa.
No entanto, para determinados pacientes com manifestações graves, o transplante de medula óssea pode representar uma alternativa com potencial de cura.
O Ministério da Saúde reconhece a anemia falciforme entre as condições que podem ter indicação para transplante de medula, conforme avaliação médica.
Ceará tem mais de 244 mil voluntários cadastrados para doação de medula
O avanço também chama atenção para a importância dos bancos de doadores. A compatibilidade entre paciente e doador representa uma etapa fundamental para viabilizar o transplante.
No Ceará, o Hemoce iniciou o cadastro de voluntários no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) em 2000. Desde então, mais de 244 mil cearenses já entraram no registro, segundo informações divulgadas pelo HU Brasil.
O Redome reúne informações genéticas de pessoas que aceitam doar medula óssea. Quando um paciente precisa de transplante, o sistema cruza os dados para identificar possíveis doadores compatíveis.
Quem deseja entrar no cadastro precisa atender aos critérios estabelecidos pelo registro. Entre eles estão ter de 18 a 35 anos, apresentar documento oficial de identidade, fornecer dados de contato e realizar uma coleta de aproximadamente 5 ml de sangue para os testes de compatibilidade.
Depois do cadastro, o voluntário precisa manter telefone e endereço atualizados. Afinal, a equipe pode precisar localizá-lo caso encontre compatibilidade com algum paciente.
Parceria amplia possibilidades de tratamento pelo SUS
O Hospital Universitário Walter Cantídio já realiza transplantes de medula óssea para diferentes doenças e conta com oito leitos destinados a esse tipo de procedimento. A unidade realiza mais de 100 transplantes por ano, segundo informações divulgadas pela instituição.
Com a experiência adquirida no tratamento da doença falciforme, o hospital e o Hemoce passam a contar com uma nova possibilidade de atendimento para pacientes que apresentem indicação clínica.
Entretanto, a quantidade de procedimentos dependerá da demanda, da capacidade da estrutura hospitalar e da avaliação individual dos pacientes.
O caso de Jaiane Ribeiro representa, assim, um marco para a saúde pública do Ceará e para a assistência especializada no Norte e Nordeste. Mais do que um procedimento inédito, a parceria mostra como a integração entre hospitais universitários e hemocentros pode ampliar o acesso a tratamentos de alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde.



