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Sociedade do Anel: a jornada que começa em casa e vai até onde nenhum hobbit havia chegado

O que torna a sociedade do anel o melhor ponto de entrada para a trilogia de Peter Jackson, e, por extensão, para a obra de Tolkien, é seu começo deliberadamente lento e doméstico. O espectador ...
Redação, da Agência NE9
2 de junho de 2026 - às 18:24
Atualizado 2 de junho de 2026 - às 18:24
4 min de leitura

O que torna a sociedade do anel o melhor ponto de entrada para a trilogia de Peter Jackson, e, por extensão, para a obra de Tolkien, é seu começo deliberadamente lento e doméstico. O espectador chega ao Shire com Frodo Baggins, um hobbit que vive numa vida confortável e sem grandes ambições, e parte com ele numa jornada que vai ampliando sua escala de forma gradual até que mundos inteiros estão em jogo.

A genialidade do hobbit como protagonista

J.R.R. Tolkien criou os hobbits como veículo de identificação deliberado para o leitor. Não são guerreiros, não têm poderes especiais, não têm ambição de grandeza. São criaturas que valorizam a boa comida, a estabilidade do lar, a companhia de amigos e o tabaco de pipoca. Colocá-los no centro de uma narrativa épica é uma escolha que parece errada à primeira vista e que prova ser genial em retrospecto: o espectador acompanha o impossível através dos olhos de alguém para quem o impossível é genuinamente impossível.

Quando Frodo vai de A Toca dos Baggins até Rivendell, depois até as Minas de Moria e depois até as margens do rio Anduin, cada passo para fora do confortável e do familiar é sentido pelo espectador que construiu identificação com quem ele era antes de começar a jornada.

O elenco de apoio como universo

A Sociedade do Anel tem a responsabilidade de estabelecer um elenco de nove personagens que o espectador precisa conhecer suficientemente para se importar com cada um deles ao longo de três filmes. Jackson resolve isso com uma construção de grupo que funciona antes mesmo da missão começar: há tempo para que os personagens se definam por como interagem, antes de serem definidos pelo que fazem em batalha.

A Sociedade do Anel e a questão da amizade masculina

Um dos aspectos menos comentados mas mais importantes do primeiro filme da trilogia é o tratamento da amizade entre Frodo e Sam. A relação entre os dois hobbits é o coração emocional de toda a jornada: enquanto o anel progressivamente isola Frodo de todos ao redor, Sam permanece o ponto de ancoragem que impede a total corrupção do portador.

A disposição de Tolkien de colocar a amizade masculina devocional, em que Sam serve Frodo com uma lealdade que não tem nada de servil mas tudo de amor genuíno por alguém que você conhece profundamente, como o valor central de uma epopeia de fantasia foi radical para a literatura popular da época e permanece incomum.

No filme, a cena no final de A Sociedade do Anel, em que Sam entra na água para alcançar Frodo mesmo que ele próprio não saiba nadar, é um dos momentos emocionais mais bem construídos da trilogia. Ela funciona porque foi preparada ao longo de todo o filme com pequenos detalhes sobre a relação entre os dois.

A aventura como gênero fundador

Se o cinema começou com imagens de trens chegando e operários saindo de fábricas, foi com as primeiras aventuras de perseguição e ação que o médio encontrou as linguagens narrativas que usa até hoje. O corte de continuidade, o paralelo entre múltiplas ações simultâneas, o uso da câmera em movimento para criar sensação de velocidade: todas essas ferramentas foram desenvolvidas e codificadas no gênero de aventura muito antes que o cinema de arte as adotasse como recursos expressivos.

Essa origem não é apenas curiosidade histórica. Significa que o gênero de aventura tem uma relação específica com a gramática básica do cinema que outros gêneros não têm da mesma forma. Quando um bom filme de aventura funciona, ele está usando o cinema no registro para o qual o cinema foi essencialmente inventado.

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