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Reconhecimento facial já prendeu quase mil devedores de pensão na Bahia

A tecnologia virou aliada da Justiça na Bahia. Em 2026, até outubro, câmeras de segurança com identificação facial espalhadas pelo estado colaboraram para a prisão de 962 homens devedores de pensão alimentícia, segundo dados da ...
REDAÇÃO ELISEU, da Agência NE9
22 de outubro de 2026 - às 07:56
Atualizado 22 de outubro de 2026 - às 07:56
4 min de leitura

A tecnologia virou aliada da Justiça na Bahia. Em 2026, até outubro, câmeras de segurança com identificação facial espalhadas pelo estado colaboraram para a prisão de 962 homens devedores de pensão alimentícia, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA). O número escancara um problema antigo que afeta milhares de mães e crianças no Nordeste.

Como a tecnologia funciona na prática

Antes de mais nada, o sistema está operando desde 2019 e, desde então, vem sendo ampliado. Hoje, são 1.200 câmeras em 81 municípios baianos. A lógica é relativamente simples: imagens de pessoas com mandados de prisão em aberto por qualquer crime estão no cadastro em um banco de dados e tratadas para que as câmeras consigam comparar a face capturada nas ruas com a imagem armazenada.

“Colocamos no nosso banco de dados (imagens) de pessoas que estejam com algum tipo de mandado de prisão em aberto e, seja qual for o crime, nós cadastramos aquela pessoa e fazemos o tratamento das imagens dela para que esteja atualizada, porque a câmera precisa fazer a leitura da face e comparar com a imagem que nós temos no banco”, explicou o coronel André Borges, superintendente de telecomunicações da SSP-BA.

De acordo com ele o aumento das prisões está diretamente ligado à expansão do sistema pelo estado.

Os números por trás das câmeras

As 962 prisões de devedores de pensão em 2026 representam cerca de 45,44% de todas as 2.117 prisões efetuadas por meio do sistema de segurança neste ano. Desde 2019, foram 6.493 prisões com apoio do reconhecimento facial até ontem — e, desse total, 32,6% foram por inadimplência com pensão alimentícia.

IndicadorDado
Prisões de devedores de pensão em 2026 (até outubro)962
Total de prisões pelo sistema em 20262.117
Percentual de prisões por pensão em 202645,44%
Prisões totais pelo sistema desde 20196.493
Percentual histórico por pensão alimentícia32,6%
Câmeras em operação1.200
Municípios atendidos81
Ano de implantação do sistema2019

O outro lado da estatística: mães que lutam sozinhas

Assim, se os números das prisões chamam atenção, os das dificuldades enfrentadas pelas mães são igualmente reveladores. Mulheres que são chefes solo do lar relatam obstáculos diários para garantir direitos básicos aos filhos por causa da omissão dos pais — muitos dos quais usam subterfúgios para não cumprir a obrigação prevista em lei.

Ao mesmo tempo, a Defensoria Pública da Bahia (DPE-BA) e o Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) atuam como intermediadores nesse conflito. Em 2025, a DPE-BA registrou 12.097 ações de pensão alimentícia, com destaque para alimentos (8.875 ações). O órgão atua tanto nas ações de alimentos — para quem ainda não tem o direito fixado pela Justiça — quanto nas ações de execução, que cobram o pagamento quando ele não ocorre. Também faz revisões de pensões já fixadas, para quem deseja aumentar ou diminuir o valor.

E 2026 já dá sinais de que a demanda segue intensa: em apenas quatro meses, de janeiro a abril, foram protocoladas 3.283 ações de alimentos — o equivalente a 37% de todo o número do ano passado. Para a coordenadora da Especializada de Família da DPE-BA, Suelen Lordelo, os dados revelam desigualdades.

Câmeras de monitoramento no São João de Campina. Foto: Secom-PB/arquivo
Câmeras de monitoramento no São João de Campina. Foto: Secom-PB/arquivo

Tecnologia resolve tudo? Nem de longe

A prisão de devedores por reconhecimento facial é, sem dúvida, uma ferramenta importante para dar efetividade a uma obrigação legal. Mas vale a reflexão: prender o devedor não paga a pensão. A tecnologia age no fim da linha — quando o problema já se instalou e a criança já ficou sem o sustento. O desafio maior continua sendo garantir que a obrigação seja cumprida antes de virar mandado de prisão, e que as mães não precisem enfrentar sozinhas batalhas judiciais para assegurar o básico aos filhos.

Enquanto isso, as câmeras seguem varrendo ruas e avenidas da Bahia, e a estatística segue crescendo. Do outro lado, milhares de mães seguem na luta — com a Justiça como aliada, mas ainda longe de uma solução definitiva.