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Uso de verba pública para shows no Nordeste: o dinheiro volta para a economia ou beneficia poucos?

O levantamento que identificou R$ 2,22 bilhões em contratos públicos para shows no Nordeste entre janeiro de 2024 e março de 2026 reacendeu um debate antigo: afinal, grandes apresentações artísticas representam apenas gasto público ou ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
31 de julho de 2026 - às 11:46
Atualizado 31 de julho de 2026 - às 11:46
5 min de leitura
Show deste sábado (28) na praia de Ponta Negra, em Natal — Foto: Gabriel Medeiros/Prefeitura de Natal
praia de Ponta Negra, em Natal — Foto: Gabriel Medeiros/Prefeitura de Natal

O levantamento que identificou R$ 2,22 bilhões em contratos públicos para shows no Nordeste entre janeiro de 2024 e março de 2026 reacendeu um debate antigo: afinal, grandes apresentações artísticas representam apenas gasto público ou também funcionam como investimento para a economia local? O estudo mostra que, das 7.412 apresentações analisadas no período, 5.818 ocorreram na região Nordeste, consolidando a região como principal destino dos shows financiados por estados e municípios.

Antes de mais nada, o estudo é do observatório “De Olho nos Ruralistas e os números impressionam. Ao mesmo tempo, o volume de contratos de shows diretos com as prefeituras se aproxima do recorde anual de captação da Lei Rouanet, que movimentou R$ 3,41 bilhões em 2025. Contudo, tem uma grande diferença: enquanto a Rouanet financia milhares de projetos culturais de diferentes áreas, os contratos que tiveram análise do estudo correspondem a pagamentos para apresentações de um grupo restrito de artistas.

A princípio, a partir desses dados surge uma questão que divide gestores públicos, economistas e especialistas em eventos.

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O Forró é o gênero musical mais tradicional do Nordeste. Foto: igor matias 2

O dinheiro fica na cidade?

A resposta não é simples e complicada para dar a resposta.

Quando uma prefeitura contrata um grande show, parte significativa do recurso vai diretamente para o cachê do artista, equipe técnica, transporte, produção e estrutura do espetáculo.

Mas o evento também costuma movimentar diversos segmentos da economia local.

Quem ganha quando acontece um grande show?

Na prática, um evento de grande porte costuma gerar demanda para diversos setores:

SetorComo é beneficiado
Hotéis e pousadasHospedagem de turistas, artistas e equipes técnicas
Restaurantes e baresAumento do consumo durante o evento
Comércio ambulanteVenda de alimentos, bebidas e souvenirs
TransporteAplicativos, táxis, ônibus e estacionamento
Postos de combustíveisMaior circulação de veículos
SupermercadosAbastecimento de comerciantes temporários
Empresas de estruturaPalco, som, iluminação e banheiros químicos
Segurança privadaContratação temporária
Limpeza urbanaReforço de equipes e serviços
TurismoPermanência maior de visitantes na cidade

Economistas chamam esse movimento de efeito multiplicador, quando um gasto inicial gera novas receitas em diferentes atividades econômicas.

O impacto depende do perfil do evento

Nem todos os shows geram o mesmo retorno.

Uma apresentação inserida em uma festa tradicional, como São João, Carnaval ou festa de padroeiro, tende a atrair turistas que permanecem mais tempo na cidade e consomem hospedagem, alimentação e lazer.

Já eventos voltados predominantemente ao público local podem ter um impacto econômico mais limitado, concentrando os benefícios em alguns segmentos específicos.

Por isso, especialistas em economia regional costumam defender que o retorno precisa de estudo caso a caso. Dessa forma, considera fatores como fluxo turístico, geração de empregos temporários e arrecadação adicional de impostos.

Há quem questione as prioridades

O mesmo levantamento que revelou a concentração de shows públicos no Nordeste também reacendeu discussões sobre prioridades orçamentárias.

Para críticos desse modelo, o elevado volume de recursos destinados a apresentações artísticas deve ser comparado às necessidades de áreas como saúde, educação, infraestrutura e assistência social.

Já defensores argumentam que eventos culturais fazem parte das políticas públicas de lazer, preservação das tradições e incentivo ao turismo, além de movimentarem a economia local.

O desafio é medir o retorno econômico

Especialistas apontam que uma das maiores dificuldades está justamente na ausência de estudos sistemáticos sobre o impacto econômico dos grandes eventos promovidos com recursos públicos.

Entre os indicadores que poderiam ser acompanhados estão:

  • ocupação da rede hoteleira;
  • aumento nas vendas do comércio;
  • geração de empregos temporários;
  • arrecadação de ISS e outros tributos;
  • movimentação do setor de alimentação;
  • fluxo de turistas antes e depois dos eventos.

Esses dados permitiriam comparar, de forma objetiva, o investimento realizado e os benefícios econômicos efetivamente gerados.

São João é uma festa tipicamente nordestina.

O debate vai além do cachê dos artistas

Os números divulgados colocam em evidência uma discussão mais ampla sobre a política cultural e o desenvolvimento regional.

Afinal, de um lado, estão os que defendem que grandes shows fortalecem o turismo, geram renda e movimentam cadeias produtivas locais.

De outro, há quem questione se o retorno econômico compensa o volume de recursos públicos empregados e se esses investimentos poderiam ser distribuídos entre outras iniciativas culturais ou áreas prioritárias.

Portanto, independentemente da posição, um ponto parece reunir consenso: medir os impactos econômicos de forma transparente pode ajudar gestores públicos e a sociedade a avaliar com mais precisão os resultados desses investimentos.

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Os números do levantamento

IndicadorTotal
Shows analisados7.412
Shows realizados no Nordeste5.818
Recursos destinados ao NordesteR$ 2,22 bilhões
Período analisadoJaneiro de 2024 a março de 2026
Captação da Lei Rouanet (2025)R$ 3,41 bilhões

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.