Início » Turismo » Projeto pode selecionar territórios de afroturismo no Nordeste

Turismo

Projeto pode selecionar territórios de afroturismo no Nordeste

Rede Memória Viva selecionará quatro territórios ligados à cultura afro-brasileira. Nordeste reúne quilombos e comunidades com forte potencial para o afroturismo.
Eliseu Lins, da Agência NE9
4 de agosto de 2026 - às 06:54
Atualizado 4 de agosto de 2026 - às 06:54
9 min de leitura

Territórios que preservam histórias, tradições, saberes e manifestações da população negra brasileira poderão ganhar uma nova ferramenta para transformar esse patrimônio cultural também em oportunidade de desenvolvimento e geração de renda.

Estão abertas as inscrições para o edital da Rede Memória Viva, projeto que selecionará quatro territórios brasileiros para integrar uma rede nacional de fortalecimento da memória e da cultura afro-brasileiras.

As inscrições seguem até 3 de outubro, e o resultado com os quatro territórios selecionados está previsto para 22 de outubro.

A princípio, a iniciativa tem relação direta com uma atividade que vem crescendo no turismo brasileiro: o afroturismo.

Afinal, o que é afroturismo?

Rota da Liberdade leva viajantes para conhecerem o Quilombo da Fazenda Foto Quilombo da Fazenda

De maneira simples, afroturismo é viajar para conhecer lugares, histórias, manifestações culturais, gastronomia, religiosidade, personagens e comunidades relacionados à população negra e à ancestralidade africana.

É uma forma de turismo na qual a própria história e os modos de vida das comunidades tornam-se parte central da experiência.

O Ministério do Turismo enquadra essas experiências dentro do turismo étnico, que envolve contato com modos de vida, identidades, saberes e fazeres de grupos e comunidades que preservam seus legados culturais.

E o Nordeste possui alguns dos exemplos mais emblemáticos do Brasil.

Nordeste reúne territórios com enorme potencial para o afroturismo

Da Bahia ao Maranhão, passando por Alagoas, Pernambuco e Paraíba, existem comunidades, bairros, quilombos, manifestações religiosas e lugares históricos diretamente ligados à presença africana e à resistência da população negra no Brasil.

Alguns deles já possuem experiências organizadas de visitação e turismo de base comunitária.

Cachoeira e os quilombos do Recôncavo Baiano

Um dos exemplos destacados pelo próprio Ministério do Turismo está em Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

A chamada Rota da Liberdade oferece experiências em comunidades quilombolas e aproxima visitantes dos saberes e modos de vida preservados no território.

No Quilombo do Kaonge, por exemplo, o visitante pode participar de rodas de conversa com griôs, conhecer espaços religiosos e acompanhar atividades tradicionais como produção artesanal de farinha e azeite de dendê.

A experiência também envolve cultivo de ostras, ervas medicinais, samba de roda e comercialização de produtos locais.

Ou seja: a memória deixa de ser apenas um elemento histórico e passa a movimentar também a economia da própria comunidade.

Salvador transformou herança africana em produto turístico

Igrejas de Salvador
Igrejas de Salvador

Salvador é outro exemplo evidente.

A capital baiana possui uma das maiores concentrações de patrimônio cultural afro-brasileiro do país, envolvendo terreiros, gastronomia, música, festas populares, museus e espaços históricos.

Em 2026, a Secretaria de Turismo da Bahia ampliou ações específicas de capacitação em afroturismo para profissionais que trabalham em Salvador.

Entre os locais utilizados para formação estão o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, a Sociedade Protetora dos Desvalidos e outros pontos do Centro Histórico.

A Bahia também mantém o projeto Agô Bahia, que trabalha a valorização das religiões de matriz africana e sua relação com o turismo.

Eventos tradicionais já passaram a ser trabalhados dentro dessa perspectiva, como a Festa de Iemanjá, em Salvador, e o Bembé do Mercado, em Santo Amaro.

São Luís tem um dos maiores símbolos desse movimento

No Maranhão, um dos exemplos mais interessantes está dentro da própria capital.

O Quilombo Urbano da Liberdade, em São Luís, tornou-se referência nacional na valorização da cultura negra por meio do turismo.

O território reúne bairros marcados pela ancestralidade e por manifestações culturais maranhenses.

A Prefeitura de São Luís mantém inclusive o Roteiro Quilombo Cultural, que passa por locais como o Mercado Municipal da Liberdade, terreiro de matriz africana, grupos culturais e manifestações do bumba meu boi.

Em 2026, São Luís recebeu o título de melhor destino nacional no 4º Prêmio do Afroturismo, reconhecimento que destacou justamente o potencial do Quilombo Urbano da Liberdade.

A cidade possui ainda um Centro de Cultura e Turismo Quilombo Urbano, criado para estimular cultura, turismo e economia criativa relacionados ao patrimônio de origem africana.

Alcântara também guarda uma enorme herança quilombola

Ainda no Maranhão, Alcântara reúne outro patrimônio importante.

Além de seu conhecido conjunto arquitetônico e histórico, o município possui uma grande concentração de comunidades quilombolas.

Entre elas está Itamatatiua, uma das comunidades tradicionais mais conhecidas do estado.

O Governo do Maranhão já identifica São Luís e Alcântara como dois dos principais territórios do estado com potencial para desenvolvimento do afroturismo.

Serra da Barriga guarda a história do Quilombo dos Palmares

Serra da Barrida foto Prefeitura de Maceió

Em Alagoas está um dos lugares mais simbólicos da resistência negra brasileira.

A Serra da Barriga, em União dos Palmares, preserva a memória do Quilombo dos Palmares e de Zumbi.

O próprio Ministério do Turismo aponta União dos Palmares entre os principais exemplos brasileiros de roteiros relacionados à cultura afro-brasileira.

A região transformou-se em destino para quem procura compreender a história da resistência à escravidão e a formação dos quilombos no Brasil.

Paraíba também desenvolve roteiros de afroturismo

Na Paraíba, experiências semelhantes começam a ganhar espaço.

João Pessoa já possui roteiros voltados especificamente à história negra da cidade, como a Caminhada Jampa Negra e a Rota Sankofa Parahyba.

Existem ainda experiências relacionadas a comunidades quilombolas, como a Rota da Liberdade no Quilombo do Bonfim.

A proposta é semelhante à encontrada em outros estados: revisitar lugares conhecidos a partir da perspectiva da população negra, recuperar personagens apagados da narrativa turística tradicional e aproximar o visitante das comunidades que mantêm essas histórias vivas.

Pernambuco também tem comunidades com potencial turístico

Em Pernambuco, comunidades quilombolas começam a integrar projetos de turismo de base comunitária.

Um exemplo está no Engenho Siqueira, em Rio Formoso, no Litoral Sul.

A comunidade participou da estruturação da rota Caminhos Rurais de Guadalupe, com identificação de atrativos que incluem casa de farinha, áreas históricas, passeios pelo rio e canais e outros elementos ligados à história e ao cotidiano local.

São experiências que mostram o tamanho do potencial nordestino para iniciativas como a Rede Memória Viva.

O que a Rede Memória Viva procura?

O edital não está restrito apenas a destinos turísticos já estruturados.

A iniciativa está mapeando experiências relacionadas à preservação da herança africana no Brasil, incluindo:

  • quilombos e comunidades tradicionais;
  • museus comunitários;
  • centros e espaços culturais;
  • organizações da sociedade civil;
  • territórios que preservam a memória e a cultura afro-brasileiras.

Os quatro territórios escolhidos terão acesso a um processo de desenvolvimento institucional que envolve formações, elaboração de projetos e estratégias relacionadas ao turismo de base comunitária e à economia da cultura.

A proposta é fazer com que esses lugares tenham mais condições de preservar sua memória e, ao mesmo tempo, gerar oportunidades econômicas a partir dela.

LEIA TAMBÉM:

Turismo pode transformar memória em renda dentro da comunidade

Esse é um dos aspectos mais importantes do chamado turismo de base comunitária.

Diferentemente de modelos turísticos nos quais grande parte do dinheiro movimentado pelo visitante acaba concentrada em empresas externas ao destino, a proposta é aumentar a participação da própria comunidade.

Guias locais, artesãos, cozinheiras, pequenos produtores, grupos culturais, pousadas, associações e empreendedores podem fazer parte da cadeia econômica criada em torno das visitas.

O Quilombo do Kaonge, na Bahia, ajuda a visualizar esse modelo: o roteiro combina história, gastronomia, produção agrícola, artesanato, religiosidade e manifestações culturais dentro da própria comunidade.

Baiana do Acaraje, foto ministerio da cultura
Baiana do Acaraje, foto ministerio da cultura

LEIA MAIS – Afroturismo: 5 rotas no Nordeste que celebram a ancestralidade afro-brasileira

Rede Memória Viva fará mapeamento nacional

Além da seleção dos quatro territórios, o projeto está realizando um mapeamento nacional de iniciativas que preservam a herança africana no Brasil.

A intenção é ampliar a visibilidade de comunidades, quilombos, museus, organizações e espaços culturais que desempenham papel importante na manutenção dessa memória.

A Rede Memória Viva integra as ações do Consórcio Viva Pequena África, formado pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), Diáspora.Black e Feira Preta.

As inscrições para o edital ficam abertas até 3 de outubro, e os quatro territórios selecionados serão divulgados em 22 de outubro.

Para o Nordeste, onde a presença africana deixou marcas profundas na formação cultural, religiosa, gastronômica e social, a iniciativa abre uma oportunidade para que outros territórios façam um caminho que lugares como Cachoeira, Salvador e São Luís já começaram a percorrer: preservar a memória sem transformá-la apenas em passado, fazendo dela também uma ferramenta de desenvolvimento para quem mantém essa história viva.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.