Início » Editorial » Por que Lula declarou guerra contra as bets?

Editorial

Por que Lula declarou guerra contra as bets?

O presidente Lula subiu o tom nesta semana em sua já conhecida insatisfação com o mercado de apostas online, as chamadas “bets”. Em uma fala contundente, ele deixou clara sua posição: “Se depender de mim, ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
9 de abril de 2026 - às 07:53
Atualizado 9 de abril de 2026 - às 07:53
4 min de leitura

O presidente Lula subiu o tom nesta semana em sua já conhecida insatisfação com o mercado de apostas online, as chamadas “bets”. Em uma fala contundente, ele deixou clara sua posição: “Se depender de mim, a gente fecha as bets”. A declaração, carregada de ênfase e repetida para garantir o impacto, não é um mero desabafo, mas um sinal político que acende um alerta no setor que movimenta bilhões na economia brasileira.

A motivação do presidente parece vir de uma combinação de fatores morais, sociais e de saúde pública. Em suas palavras, Lula resgata uma contradição histórica: “Eu passei toda a minha vida ouvindo dizer que não era possível ter jogo de azar, não era possível ter cassino, jogo do bicho era contravenção. Hoje, o cassino está dentro da sua casa, com o seu filho de dez anos, com o seu neto de 11 anos”. A crítica é direta: enquanto a legislação brasileira sempre criminalizou os jogos físicos, o ambiente digital permitiu que as apostas se tornassem uma epidemia silenciosa, acessível a crianças e adolescentes sem qualquer freio efetivo.

Futebol sobreviveu 150 anos sem as bets

O presidente também rebate um argumento econômico que tem sustentado a expansão das bets no país: a de que o futebol não sobreviveria sem o patrocínio dessas empresas. “O futebol viveu um século e meio sem as bets”, rebate Lula. A frase é um golpe na narrativa de que o esporte mais popular do país estaria refém das casas de apostas. Para ele, a relação não é uma necessidade vital, mas uma escolha perigosa que normalizou o vício dentro de campo e fora dele.

Vício em jogo é questão de saúde pública

Mas a declaração mais relevante, do ponto de vista da política pública, veio ao final. Ao afirmar que “quando a pessoa está viciada no jogo, a pessoa tem que tratar isso com uma questão de saúde”, Lula muda o eixo do debate. Ele não quer apenas tratar apenas de moralidade ou segurança, mas de um problema de saúde coletiva. A dependência em apostas já é comparada por especialistas ao alcoolismo e à toxicomania. Dessa forma, tem consequências devastadoras para famílias e para a saúde mental dos jovens.

LEIA TAMBÉM:

Declaração populista e no tom certo

 A declaração de Lula é populista? Em parte, sim. Ela agrada a um eleitorado conservador e religioso que sempre viu o jogo como pecado. No entanto, é também um alerta necessário. As bets cresceram no Brasil em um vácuo regulatório, aproveitando-se da fragilidade do Estado e da vulnerabilidade de uma população com baixa educação financeira. Fechar totalmente as bets pode ser uma medida extrema e difícil de implementar, dado o poder econômico e político do setor. Mas o presidente acerta ao colocar o dedo na ferida: não é possível que, em um país onde o bicho é contravenção, um adolescente possa, com um clique, perder o dinheiro da merenda na esperança de um “prêmio fácil”. A guerra declarada por Lula não é contra o entretenimento, mas contra a exploração da miséria e da ingenuidade. Resta saber se ele terá força política para travá-la.

Assuntos

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.