O Nordeste brasileiro deu um passo estratégico para transformar a realidade da agricultura familiar ao aprofundar a cooperação tecnológica com a China, com foco na mecanização de pequenas propriedades rurais.
A iniciativa, liderada pelo Consórcio Nordeste, ganhou dimensão nacional e inspirou um acordo federal que resultou na criação de um Laboratório Conjunto Brasil–China em Mecanização e Inteligência Artificial para Agricultura Familiar, reforçando o protagonismo da região em um dos temas mais sensíveis para a segurança alimentar do país.
Atualmente, mais de 70% dos alimentos consumidos no Brasil são produzidos pela agricultura familiar. Apesar disso, a mecanização ainda é um gargalo histórico, especialmente no Nordeste, que concentra cerca de metade dos pequenos produtores brasileiros.
Dados do IBGE mostram que apenas 2,3% das propriedades rurais nordestinas contam com algum tipo de maquinário, cenário que limita a produtividade, aumenta o esforço físico no campo e compromete a renda das famílias.
Cooperação Brasil–China com DNA nordestino
O avanço mais recente dessa agenda foi discutido durante o Seminário Brasil-China de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Máquinas e Equipamentos Agrícolas, realizado em Brasília, com a presença de representantes dos nove estados do Nordeste, do Governo Federal e da diplomacia chinesa. Dessa maneira, o encontro consolidou uma cooperação que nasceu no Nordeste e agora se projeta como política nacional.
Desde 2024, o Consórcio Nordeste mantém um memorando de cooperação com a Universidade Agrícola da China, que viabilizou a criação de um “laboratório vivo” em Apodi (RN).
No local, máquinas chinesas de pequeno porte vêm sendo testadas em condições reais de uso por agricultores familiares. Relatórios técnicos indicam que os equipamentos reduziram em até 90% o esforço físico dos trabalhadores, com ganhos diretos de eficiência e qualidade de vida.

Segundo o secretário-executivo do Consórcio Nordeste, Carlos Gabas, o modelo tradicional de mecanização no Brasil sempre privilegiou grandes propriedades.
“A China tem experiência em máquinas adaptadas a pequenas áreas. Nosso objetivo não é apenas importar, mas produzir no Brasil, com transferência de tecnologia, fortalecendo a indústria nacional e atendendo à realidade do agricultor familiar”, afirmou.
Laboratório conjunto e indústria nacional
A experiência bem-sucedida no Rio Grande do Norte foi decisiva para a formalização, pelo Governo Federal, do Laboratório Conjunto Brasil–China, que terá sede na Paraíba. Sendo assim, a iniciativa dialoga com o programa Nova Indústria Brasil e reforça a estratégia de soberania tecnológica, ao unir pesquisa, inovação e produção industrial voltadas ao campo.
Durante o seminário, o ambiente também foi favorável à aproximação entre empresas dos dois países. Grupos chineses como Weichai Lovol e YTO International dialogaram com empresas brasileiras como Jacto, Baldan e a Embrapa, buscando parcerias para desenvolver máquinas adaptadas ao solo, ao clima e às normas brasileiras — com forte potencial de implantação no Nordeste.
Potencial para a agricultura familiar nordestina
Os governos estaduais nordestinos apresentaram políticas públicas, linhas de incentivo e benefícios fiscais voltados à modernização agrícola. Para Alexandre Lima, coordenador da Câmara Temática da Agricultura Familiar do Consórcio Nordeste, a atuação integrada dos estados é essencial para mudar um cenário histórico de baixa mecanização. “Estamos criando as condições para que o agricultor familiar produza mais, com menos esforço e mais renda”, destacou.
A mecanização adequada pode representar, para o Nordeste, aumento de produtividade, redução de custos, permanência do homem e da mulher no campo e fortalecimento da segurança alimentar. Além disso, a possibilidade de produzir máquinas no Brasil, a partir da cooperação com a China, abre espaço para geração de empregos, desenvolvimento industrial e inovação regional.
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Alinhamento estratégico internacional
No encerramento do evento, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, ressaltou que a parceria com a China fortalece a soberania tecnológica brasileira e integra uma visão de desenvolvimento de longo prazo. Já o embaixador chinês, Zhu Qingqiao, destacou que o atual alinhamento entre os dois países cria uma oportunidade para cooperação sustentável e ganhos mútuos.
Portanto, com essa articulação, o Nordeste se consolida como epicentro de uma nova política de inovação para a agricultura familiar, conectando pequenos produtores, governos, universidades e indústria.


