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Filho do Piseiro: amazonense, filho de cearenses e fenômeno que mistura Norte e Nordeste

Nascido no Amazonas e filho de cearenses, Filho do Piseiro mistura referências do Norte e Nordeste e virou fenômeno nacional do piseiro.
Eliseu Lins, da Agência NE9
3 de outubro de 2026 - às 09:41
Atualizado 3 de outubro de 2026 - às 09:41
8 min de leitura

Nascido no Amazonas e filho de nordestinos, cantor transformou piseiro, forró e o famoso “buh” em uma marca própria que conquistou o Brasil

Ele nasceu no Amazonas, cresceu cercado por referências nordestinas e encontrou na música uma maneira de juntar essas duas culturas no mesmo palco. Assim surgiu um dos nomes que mais chamaram atenção na música popular brasileira em 2026: Filho do Piseiro, nome artístico de Everton da Silva de Souza.

Nascido em Manaus e criado na comunidade do Caldeirão, em Iranduba, o cantor é filho de cearenses e construiu sua identidade artística a partir dessa mistura. A própria imprensa especializada passou a descrevê-lo como o “amazonense mais nordestino do Brasil”.

E a definição faz sentido quando se observa o repertório.

De um lado, está a identidade amazônica, que aparece na história pessoal do artista, nas referências à terra natal e no retorno constante ao Amazonas. Do outro, está o forró, o piseiro, o brega e a estética dos paredões, gêneros e elementos fortemente associados à cultura nordestina.

O resultado é um show que aposta menos na separação entre essas referências e mais na mistura delas.

Filho de cearenses, criado no Amazonas

A história de Everton ajuda a entender essa combinação.

Embora tenha nascido em Manaus, o cantor cresceu em uma família de origem cearense. Desde cedo, portanto, conviveu com referências culturais do Nordeste enquanto vivia no ambiente amazônico.

Antes da fama, ele passou anos fazendo apresentações em Manaus. O repertório daquela época misturava sertanejo, piseiro, arrocha e brega, geralmente em apresentações de voz e violão ou com acompanhamento eletrônico.

Além da música, Everton também trabalhou em diferentes atividades antes de conseguir viver exclusivamente da carreira artística.

Ele chegou a trabalhar com agropecuária, construção civil e em açougue. Nesse último emprego, costumava cantar para animar o ambiente.

A trajetória mudou quando os vídeos do artista começaram a circular nas redes sociais.

O “buh” virou assinatura

Se existe um elemento capaz de explicar rapidamente quem é Filho do Piseiro, é o famoso “buh”.

O cantor reproduz com a própria voz o som do médio grave de caixas de som utilizadas em apresentações e paredões. A brincadeira virou técnica, depois virou bordão e, finalmente, transformou-se em uma das marcas de seu trabalho.

O recurso aparece em músicas como “Raparigas”, um dos grandes sucessos da carreira, e no medley que inclui “Meu Pai Paga Minha Faculdade”.

A Folha de S.Paulo destacou justamente essa característica ao analisar como o artista transformou uma batida em um elemento de identificação do forró contemporâneo.

Além disso, o próprio cantor explica que aperfeiçoou a técnica depois de ouvir outros artistas utilizando recursos semelhantes.

Assim, o que poderia parecer apenas uma brincadeira ganhou função musical.

“Raparigas” colocou o cantor nas plataformas

A virada nacional aconteceu principalmente com “Raparigas” e “Meu Pai Paga Minha Faculdade”.

Segundo a Billboard Brasil, “Raparigas” ultrapassou 8 milhões de streams no Spotify já no início de 2026 e ajudou a levar o cantor das redes sociais para programas de televisão e grandes palcos.

O sucesso também chegou aos eventos.

Durante o Carnaval de 2026, apresentações do cantor em cidades como Quixadá e Reriutaba, no Ceará, Catolé do Rocha, na Paraíba, Itapipoca e Pacoti, no Ceará, reuniram mais de 100 mil pessoas somadas, segundo a Billboard Brasil.

Depois, a agenda cresceu ainda mais durante o São João.

A Billboard registrou cerca de 70 apresentações entre junho e julho, enquanto o artista passou a circular por diferentes estados brasileiros.

Do Amazonas para os palcos do Nordeste

A relação com o Nordeste ganhou uma dimensão especial durante 2026.

Depois de conquistar o público nacional, Filho do Piseiro voltou ao Amazonas para apresentações que reforçaram justamente sua ligação com as duas regiões.

Em junho, ele se apresentou em Parintins, durante a Festa dos Visitantes. A apresentação ocorreu durante uma agenda junina que levou o cantor a diferentes cidades brasileiras.

Antes disso, em maio, Everton gravou seu primeiro DVD na Praia da Ponta Negra, em Manaus.

A produção reuniu, segundo a Prefeitura de Manaus, quase 80 mil pessoas, transformando o evento em um dos principais momentos da carreira do artista naquele ano.

O cenário também tem significado simbólico.

O artista voltou para sua cidade natal já como um nome conhecido nacionalmente, mas levou para o palco justamente a sonoridade que construiu a partir de suas referências nordestinas.

Um show que mistura culturas

É nesse ponto que Filho do Piseiro se diferencia dentro da atual onda do piseiro.

Seu espetáculo não apresenta simplesmente um cantor nordestino reproduzindo um gênero musical. Ele traz o Nordeste para dentro de uma trajetória construída no Norte do país.

O forró e o piseiro aparecem como base. Entretanto, a história pessoal do artista acrescenta outra camada: a identidade amazônica.

Em entrevistas recentes, ele também fez questão de falar sobre sua terra natal. A Billboard, por exemplo, registrou referências do cantor à culinária amazonense, a Manaus e à cultura dos bois de Parintins.

Ao mesmo tempo, quando fala de música, Everton não esconde a influência nordestina.

Ele cita o forró, o xote e artistas ligados ao circuito do piseiro e do forró como referências de sua trajetória.

Norte e Nordeste aparecem no mesmo espetáculo

ReferênciaComo aparece na trajetória
AmazonasLocal de nascimento e formação do artista
CearáOrigem dos pais e forte influência familiar
ForróBase musical do repertório
PiseiroPrincipal gênero associado ao artista
ParedõesReferência sonora para o “médio grave”
BregaPresente entre as influências musicais
Redes sociaisPrincipal caminho para a viralização
Humor e interaçãoElementos importantes do espetáculo

O Nordeste ajudou a transformar a história em fenômeno

A conexão com o Nordeste também aparece na própria expansão dos shows.

Em 2026, o cantor passou por cidades nordestinas durante Carnaval e São João e dividiu palcos com nomes importantes do piseiro e do forró. Em julho, por exemplo, ele abriu o Arraiá do Villa Country, em São Paulo, ao lado de Tarcísio do Acordeon, em uma programação que reuniu nomes como Vitor Fernandes, Iguinho & Lulinha, Felipe Amorim e Raí Saia Rodada.

Isso mostra como o artista deixou rapidamente o circuito local para entrar na programação de grandes eventos do gênero.

Além disso, sua presença em programas de televisão ampliou o alcance para além do público que já acompanha o piseiro.

Da porta do açougue para uma multidão

A história de Filho do Piseiro também chama atenção pela velocidade da transformação.

Antes dos milhões de visualizações, Everton fazia apresentações pequenas. Em entrevista à Billboard Brasil, ele contou que chegou a trabalhar em serviços como capina de terrenos e fazer shows por valores muito baixos. Em determinado momento, recebeu apenas R$ 30 por uma apresentação, depois de trabalhar no mesmo dia na limpeza de um terreno.

Depois, as redes sociais mudaram a escala da carreira.

O que começou com vídeos simples ganhou milhões de visualizações, levou o cantor à televisão, aumentou a agenda de shows e culminou na gravação de um DVD para dezenas de milhares de pessoas em Manaus.

O fenômeno vai além do piseiro

Filho do Piseiro representa também uma mudança na forma como a música regional chega ao público.

O artista utiliza uma linguagem muito própria das redes sociais, transforma uma característica sonora em bordão e leva essa identidade para os palcos.

Ao mesmo tempo, mantém elementos reconhecíveis do forró e do piseiro.

Por isso, sua trajetória ajuda a mostrar como uma cultura regional pode atravessar fronteiras sem necessariamente abandonar suas características.

No caso de Everton, a história ficou ainda mais particular: ele nasceu no Norte, carrega uma herança familiar nordestina e transformou essa mistura em entretenimento.

Um amazonense com alma nordestina

Filho do Amazonas e de pais cearenses, Filho do Piseiro construiu uma carreira que não precisa escolher entre as duas referências.

Ele pode cantar forró em Manaus, levar a cultura amazonense para um público nacional e, ao mesmo tempo, fazer o público nordestino reconhecer no palco elementos de sua própria cultura.

E talvez esteja justamente aí uma das explicações para a força do fenômeno: em vez de separar Norte e Nordeste, o artista transformou os dois em parte da mesma história musical.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.