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Entenda como escapar das armadilhas do crédito fácil

Você já passou por esta cena? Está no supermercado, no posto de gasolina ou na farmácia. Na hora de pagar, o atendente oferece: “pode parcelar em até 3 vezes sem juros”. Parece vantajoso, não é? ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
13 de maio de 2026 - às 09:41
Atualizado 13 de maio de 2026 - às 09:41
5 min de leitura

Você já passou por esta cena? Está no supermercado, no posto de gasolina ou na farmácia. Na hora de pagar, o atendente oferece: “pode parcelar em até 3 vezes sem juros”. Parece vantajoso, não é? Afinal, você leva o produto hoje e paga depois. O crédito fácil pode ser um auxílio para milhões de brasileiros. Contudo, é preciso cuidado.

Mas cuidado: o que parece um benefício pode se tornar uma grande armadilha. Esse hábito de parcelar até compras pequenas tem levado milhões de brasileiros ao endividamento.

O risco de usar o crédito para contas do dia a dia

De acordo com a socióloga Adriana Marcolino, do Dieese, o que está acontecendo é que “estamos vendo muitas pessoas utilizando o crediário para pagar contas do orçamento mensal.”

O problema é que o crédito foi feito para financiar bens de maior valor e produtos duráveis (como uma geladeira, um fogão ou um carro). Quando usamos o parcelamento para compras pequenas e frequentes (como comida, gasolina ou remédios), o orçamento mensal começa a desandar.

Ansiedade de consumo: a vontade de comprar agora

A economista Katherine Hennings, da FGV, alerta para a chamada “ansiedade de consumo” :

“Nós temos um comportamento que é de tentar antecipar ao máximo o que a gente consegue consumir.”

Isso acontece com pessoas de todas as rendas. A gente vê uma propaganda, um influencer recomendando um produto, e sente vontade de comprar na hora. Como o crédito está ali, fácil, a gente antecipa o consumo sem pensar nas consequências.

O erro mais comum: achar que limite é renda

A economista Isabela Tavares, da Consultoria Tendências, alerta para um erro frequente:

“Precisamos entender que o limite do cartão de crédito não é uma renda extra. Quem ganha R5miletemumlimitetambeˊmdeR5miletemumlimitetambeˊmdeR 5 mil não tem renda de R$ 10 mil.”

Parece óbvio, mas muitas pessoas caem nessa armadilha. Elas somam o salário com o limite do cartão e passam a gastar como se tivessem uma renda maior.

Ceará é campeão em renegociação de dívidas. Foto: Freepik
Renegociação de dívidas. Foto: FCeará é campeão em renegociação de dívidas. Foto: Freepik

Os números assustam

O endividamento no Brasil atingiu níveis alarmantes. Veja os dados:

IndicadorNúmero
Pessoas inadimplentes no Brasil81,7 milhões
Dívida total das famílias no sistema financeiroR$ 238,5 bilhões
Percentual da dívida que está com bancos e financeiras47,1%
Percentual de devedores que ganham até 2 salários mínimos78%

Ou seja: a maioria dos endividados é de pessoas com baixa renda, que acabam recorrendo às opções de crédito mais caras (como cheque especial e rotativo do cartão).

Os perigos de não fazer as contas

O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, explica que o brasileiro até pesquisa preço do produto, mas na hora de financiar:

“Tem o hábito de simplesmente verificar se é possível acomodar a prestação dentro do orçamento.”

Ele não olha para os juros que vai pagar no total. E esse descuido pode custar caro.

Como escapar dessa armadilha? Dicas práticas

Para ajudar você a sair do vermelho e evitar o endividamento, reunimos as principais recomendações dos especialistas:

DicaExplicação
Crédito não é rendaSeu limite de cartão não é dinheiro extra. Ele precisa ser pago com o que você ganha.
Evite parcelar compras pequenasSupermercado, farmácia e gasolina devem ser pagos à vista sempre que possível.
Faça as contas antes de comprarNão olhe só para o valor da parcela. Veja o preço total com juros.
Cuidado com o rotativo do cartãoÉ uma das formas de crédito mais caras do mercado.
Cheque especial é para emergênciasNão use como complemento de renda. Os juros são altíssimos.
Faça um orçamento mensalAnote tudo o que ganha e tudo o que gasta. Assim você enxerga para onde o dinheiro está indo.

LEIA TAMBÉM:

O que é o Desenrola 2?

O governo federal criou o programa Desenrola 2 para ajudar as pessoas a refinanciarem suas dívidas. O programa permite usar o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar ou reduzir débitos.

Mas atenção: o planejador financeiro Carlos Castro alerta que o programa é uma medida de emergência, de curto prazo. A solução de verdade é estrutural:

“Evitar que o brasileiro volte a se endividar, e continue no mesmo nível de endividamento que temos hoje.”

Resumo para você guardar

PerguntaResposta
Quantos brasileiros estão inadimplentes?81,7 milhões
Qual o principal erro dos consumidores?Achar que limite do cartão é renda extra
O que é mais perigoso para o orçamento?Parcelar compras pequenas e do dia a dia
O que fazer para evitar dívidas?Fazer orçamento, pagar à vista, evitar juros altos
O Desenrola 2 resolve o problema?Ajuda, mas não resolve a causa: falta de educação financeira

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.