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Fiocruz inicia estudo com injeção para prevenção do HIV; Salvador é a única cidade do Nordeste incluída

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) anunciou o lançamento de um estudo que vai contribuir para a avaliação da incorporação de uma injeção semestral para prevenção do HIV no Sistema Único de Saúde (SUS), reforçando a ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
17 de janeiro de 2026 - às 06:50
Atualizado 17 de janeiro de 2026 - às 06:50
4 min de leitura

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) anunciou o lançamento de um estudo que vai contribuir para a avaliação da incorporação de uma injeção semestral para prevenção do HIV no Sistema Único de Saúde (SUS), reforçando a estratégia de combate à infecção no Brasil.

O medicamento utilizado será o Sunlenca (lenacapavir), aprovado recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso como profilaxia pré-exposição (PrEP) contra o HIV-1.

A princípio, o estudo, denominado ImPrEP LEN Brasil, focará em populações com maior risco de contrair HIV, incluindo homens gays e bissexuais, pessoas não binárias que se identificam como do sexo masculino ao nascer e pessoas transgênero de 16 a 30 anos. A pesquisa será conduzida em sete cidades brasileiras, sendo Salvador (BA) a única do Nordeste incluída nessa iniciativa, ao lado de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Manaus, Campinas e Nova Iguaçu.

Fio Cruz foto Rodrigo Mexas

O que é o lenacapavir e por que é importante

O lenacapavir, comercializado como Sunlenca (ou Yeztugo em outros mercados), é um antirretroviral inovador que atua de forma diferenciada das medicações tradicionais para prevenção do HIV. Ele pertence à classe dos inibidores do capsídeo do vírus HIV-1, atuando em múltiplas etapas do ciclo de vida do vírus, o que dificulta a replicação e reduz a possibilidade de infecção.

A principal vantagem do lenacapavir é sua formulação de **injeção subcutânea que precisa ser aplicada apenas duas vezes ao ano, o que representa um avanço significativo em relação às opções de PrEP que exigem administração diária. Assim, esse regime semestral pode melhorar a adesão ao tratamento, reduzindo a necessidade de visitas frequentes a serviços de saúde e aliviando a carga logística e psicológica associada à prevenção do HIV.

Eficácia comprovada nos estudos clínicos

Os dados apresentados à Anvisa que embasaram a aprovação do medicamento mostraram altos índices de eficácia em comparação com as práticas tradicionais de PrEP oral. Estudos como PURPOSE 1 e PURPOSE 2 demonstraram redução substancial na incidência de HIV-1, com resultados que incluem até 100% de proteção em determinados grupos de participantes e desempenho superior às formulações orais diárias.

Essa eficácia é um marco na prevenção combinada do HIV — estratégia que inclui o uso de antirretrovirais, testagem regular, uso de preservativos e outras medidas de redução de risco — e pode contribuir para a diminuição das novas infecções no Brasil, especialmente em grupos mais vulneráveis à epidemia.

Panorama no Nordeste: Salvador como polo estratégico

A inclusão de Salvador como um dos polos do estudo destaca a importância da capital baiana no cenário nacional de saúde pública. O Nordeste enfrenta desafios específicos no combate ao HIV, com desigualdades de acesso a serviços de saúde e taxas de incidência que variam conforme município e grupos populacionais.

Ter uma pesquisa desse porte na região permite não apenas gerar evidências científicas localmente relevantes, mas também aproximar as comunidades mais afetadas pelas estratégias de prevenção de tecnologias inovadoras.

Especialistas em saúde pública apontam que soluções de PrEP de longa duração, como o lenacapavir, podem ser especialmente úteis em contextos onde a aderência a tratamentos diários é mais difícil, seja por questões de acesso, estigma ou rotina de vida. Entretanto, a possibilidade de receber apenas duas injeções por ano oferece flexibilidade e pode ampliar a cobertura preventiva entre populações-chave.

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Próximos passos e desafios

A Fiocruz confirmou que as doses de lenacapavir já foram disponibilizadas pela fabricante Gilead Sciences, e o início das aplicações depende exclusivamente da chegada ao Brasil de insumos específicos, como agulhas e kits de administração.

Portanto, a partir daí, o estudo vai gerar dados fundamentais para subsidiar a eventual incorporação da injeção semestral de PrEP no SUS, processo que envolve avaliação técnica e recomendações de comissões especializadas.

Afinal, ao combinar inovação terapêutica, implementação científica e inclusão de centros no Nordeste, a pesquisa ImPrEP LEN Brasil representa um passo importante no fortalecimento das políticas públicas de prevenção ao HIV, com potencial de impactar positivamente a vida de milhares de pessoas em todo o país.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.