Nos anos 2000, quando o surfe de ondas gigantes ainda era dominado pelo tow-in — técnica em que o atleta é rebocado por jet-ski —, três surfistas da Bahia decidiram ir na contramão da tendência e encarar, na remada, uma das ondas mais temidas do planeta: Jaws (Pe’ahi), no Havaí. Assim nasceu a lenda dos “Mad Dogs” baianos, grupo formado por Márcio Freire (in memoriam), Danilo Couto e Yuri Soledade.
A princípio, o apelido, que significa “Cachorros Loucos”, não veio por acaso. Foi dado pelos próprios moradores e surfistas locais de Maui, impressionados com a ousadia do trio brasileiro, que passou a enfrentar paredes d’água de mais de 15 metros sem o apoio de jet-skis, sem coletes infláveis e sem equipes profissionais de resgate — algo raro para os padrões de segurança atuais do surfe de ondas grandes.
Pioneiros da remada em Jaws
À época, Jaws era considerada uma onda praticamente “exclusiva” do tow-in, devido à sua força, velocidade e ao difícil posicionamento para a entrada na onda. Os Mad Dogs ajudaram a quebrar esse paradigma, mostrando que era possível surfar Pe’ahi apenas com força física, leitura de mar e preparo extremo.
A iniciativa dos baianos não só chamou atenção no Havaí, como também teve impacto direto na evolução do paddle surfing (surfe de ondas grandes na remada) em todo o mundo. Depois deles, outros big riders passaram a investir em treinamento físico e técnico para buscar ondas gigantes sem auxílio mecânico.
Coragem, improviso e espírito raiz
O estilo dos Mad Dogs ficou marcado por uma abordagem considerada raiz e minimalista: pranchas grandes, preparo físico pesado e praticamente nenhum aparato de segurança, em um período em que o surfe de ondas gigantes ainda não contava com a estrutura profissional que existe hoje.
Essa postura reforçou a imagem de um surfe movido mais pela paixão e pelo desafio pessoal do que por contratos, rankings ou grandes patrocinadores. Para muitos, o trio representou um espírito de aventura que ajudou a manter viva a essência do big surf.



Confira essa entrevista dos Mad Dog ao site de mdia da Red Bull.
Legado para novas gerações
O impacto dos Mad Dogs vai além dos feitos históricos em Jaws e segue vivo na trajetória de novos atletas que hoje representam o surfe baiano no cenário das ondas gigantes. Um dos exemplos mais simbólicos desse legado é o de Catarina Lorenzo, jovem surfista de Salvador que, aos 18 anos, tornou-se a sul-americana mais nova a surfar as temidas ondas de Jaws, no Havaí.
A conquista marcou um novo capítulo no surfe brasileiro e reforçou a continuidade direta da história iniciada pelos baianos em Maui. Catarina é sobrinha de Márcio Freire, um dos integrantes dos Mad Dogs, e cresceu ouvindo histórias e acompanhando de perto a relação da família com o pico havaiano, considerado um dos mais perigosos do mundo para a prática do surfe.

Segundo a atleta, surfar Jaws era um sonho cultivado desde a infância. A conexão afetiva com o local tornou a experiência ainda mais intensa, já que a onda era um dos lugares favoritos do tio. Para ela, estar ali representava não apenas um desafio esportivo, mas também um momento de forte significado emocional e espiritual, marcado por gratidão e sensação de proteção.
Antes de chegar a Jaws, Catarina passou por um processo gradual de preparação, com treinos em ondas grandes e experiências em picos como Nazaré, em Portugal, além de ensinamentos técnicos transmitidos por surfistas mais experientes da família. O próprio Márcio Freire teve papel decisivo em sua formação, ao incentivá-la desde cedo a enfrentar ondas de grande porte, inclusive quando ela ainda era adolescente.
A presença da jovem em um dos picos mais tradicionais do big surf mundial também carrega um peso simbólico importante: mulher, brasileira e baiana em um ambiente historicamente dominado por homens. Para Catarina, ocupar esse espaço significa representar uma nova geração e contribuir para ampliar a participação feminina no surfe de ondas gigantes, que ainda enfrenta barreiras e preconceitos.
Ela destaca que, em Maui, encontrou uma comunidade que incentiva a presença de mulheres no line-up, e acredita que quanto mais atletas femininas estiverem na água, menor será a desigualdade no esporte. Para a surfista, seu feito não é um ponto final, mas parte de um processo de abertura de caminhos.
Assim como os Mad Dogs ajudaram a inserir brasileiros — e especialmente baianos — na elite do surfe de ondas gigantes, Catarina espera que sua trajetória também sirva de inspiração para outras meninas. O que antes era visto como um território quase inalcançável agora começa a ser ocupado por uma nova geração que carrega, na prancha e na coragem, o legado deixado por aqueles que primeiro ousaram desafiar Jaws apenas na força da remada.
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Bahia no mapa do surfe de ondas gigantes
A trajetória de Márcio Freire, Danilo Couto e Yuri Soledade também ajudou a colocar a Bahia no mapa mundial do surfe de ondas grandes, mostrando que o Nordeste brasileiro não é apenas berço de ondas clássicas para o surfe tradicional, mas também formador de atletas capazes de enfrentar os maiores desafios do esporte.
Portanto, há mais de duas décadas depois das primeiras investidas em Jaws, os Mad Dogs baianos seguem como referência de coragem, pioneirismo e identidade brasileira no cenário do big surf mundial — uma história que mistura ousadia, técnica e muita resistência física, escrita literalmente na força do braço.


